Vida Real: o supermercado, o Presidente e a crise dos preços, por Thaiza Marca
17 de fevereiro de 2025
Imagino o que passou pela cabeça de um brasileiro ao ouvir a última declaração do presidente Lula sobre como resolver a alta dos preços no supermercado. O presidente, com toda a sua sabedoria, sugeriu que a população simplesmente “não compre o que está caro”. Talvez o brasileiro que, após horas de trabalho, entrou no supermercado com o orçamento apertado tenha parado por um momento, olhou para o arroz, o feijão e a carne e se perguntado: “Será que é isso que eu faço agora?” A solução parecia simples: não comprar, escolher o mais barato, ter disciplina. Só isso. Como se fosse possível salvar o dia com uma escolha no corredor do supermercado, sem considerar que a realidade não se resume a um simples dilema entre o caro e o barato, mas sim à luta diária pela sobrevivência.
O que o presidente não parece ter entendido é que essa “educação do consumidor” proposta não resolve o problema de quem está vendo seus rendimentos evaporarem a cada mês, enquanto o custo de vida só sobe. A grande questão não está em escolher entre o arroz mais caro e o mais barato, mas em como lidar com o fato de que quase tudo se tornou inacessível.
Para muitos brasileiros, escolher o mais barato não é uma estratégia econômica, mas uma necessidade imposta pela alta inflação. Como explicar ao trabalhador que, mesmo cortando todos os luxos, ele ainda não consegue pagar por um alimento básico? A proposta de simplesmente não comprar o que está caro ignora a realidade de que, no Brasil de hoje, o problema não é só o preço, mas a falta de alternativas.
E se a solução fosse mesmo tão simples quanto não comprar o que está caro, por que o presidente não sugeriu isso antes? Será que ele imagina que os preços vão baixar magicamente porque a população decide ser “disciplinada”? Ou ele está, na verdade, transferindo para o cidadão a responsabilidade por um problema estrutural? No fim, essa proposta parece mais um escapismo de um governo que não tem como lidar com os efeitos da inflação ou com a falta de controle sobre a alta dos preços. Passa a impressão de que o governo não está disposto a enfrentar os reais responsáveis por essa escalada de preços, mas sim jogar a culpa em quem já está sofrendo.
A pergunta que fica é: até quando o governo vai se eximir de suas responsabilidades e jogar no colo da população a tarefa de resolver os problemas econômicos do país? Se o caminho para superar a crise for depender da “educação” do consumidor, até onde podemos esperar que o povo se sacrifique? Afinal, não são as prateleiras vazias que vão alimentar o brasileiro, mas políticas públicas efetivas que garantam preços justos e o direito à alimentação de qualidade para todos.
A verdadeira pergunta é: até que ponto é justo exigir que o consumidor, que já vive com o orçamento no limite, carregue o peso de uma crise que não é sua? E o que mais será preciso abrir mão para que o presidente finalmente perceba que o problema não está na prateleira, mas nas políticas que não têm dado conta de combater a inflação?
Thaiza Marca. Advogada. Pós-graduada em Direito Civil, Processo Civil, Imobiliário e Direito Público. Colunista Jurídica. Ajudando as pessoas a entenderem seus direitos. Acompanhe o meu trabalho @thaizamarca e @thaizamarca.advogada
