Transparência não é insegurança: é advocacia responsável e comprometimento com a ética, por Fernando Henrique da Silveira
9 de julho de 2026

Fernando Henrique da Silveira
Há uma pergunta que acompanha praticamente todos os advogados ao longo da carreira: como explicar ao cliente os riscos de uma demanda judicial sem transmitir a impressão de insegurança profissional?
A resposta passa por um princípio fundamental da advocacia: ninguém pode garantir o resultado de um processo. O advogado não julga; quem decide é o Poder Judiciário. Nossa missão consiste em estudar profundamente o caso, interpretar o ordenamento jurídico, construir a melhor estratégia possível e defender os interesses do cliente com competência, técnica e ética.
Infelizmente, ainda existem profissionais que, na ânsia de conquistar um cliente, prometem vitórias praticamente certas. Trata-se de um grave equívoco. Além de contrariar a prudência profissional, esse comportamento cria expectativas irreais que, muitas vezes, terminam em frustração e desgaste da relação de confiança.
Há também um aspecto comportamental que merece reflexão. Alguns clientes, especialmente aqueles que chegam ao escritório emocionalmente abalados pelo conflito que enfrentam, acabam associando competência profissional à postura teatral.
Sentem-se mais seguros diante do advogado que fala alto, gesticula com intensidade, demonstra veemência em excesso e afirma, com aparente convicção, que “vai ganhar a causa”. Para esse perfil de cliente, a firmeza na voz é confundida com conhecimento jurídico, e a promessa de vitória parece ser uma prova de capacidade técnica. Entretanto, essa percepção nem sempre corresponde à realidade.
O processo judicial não é decidido pelo advogado mais eloquente, mas pela qualidade das provas produzidas, pela consistência dos fundamentos jurídicos e, sobretudo, pelo livre convencimento motivado do magistrado, formado a partir das provas constantes dos autos e dos fundamentos jurídicos aplicáveis ao caso concreto.
O advogado exerce papel indispensável à administração da Justiça, mas não detém o poder de decidir o resultado da demanda. Quem vende essa ideia cria uma ilusão perigosa, que pode comprometer a confiança na própria advocacia quando o desfecho não corresponde às promessas feitas.
Sempre defendi que o cliente merece conhecer toda a realidade do seu processo. Isso significa apresentar os fundamentos favoráveis à sua pretensão, mas também expor, com serenidade, os riscos existentes: dificuldades probatórias, entendimentos divergentes dos tribunais, possibilidade de recursos, custos envolvidos e até a duração provável da demanda. Essa postura não afasta o cliente; ao contrário, fortalece a credibilidade do advogado.
O profissional experiente não afirma simplesmente que uma ação “vai ganhar” ou “vai perder”. Ele explica que, diante das provas disponíveis e da legislação aplicável, existem elementos que tornam a pretensão juridicamente viável, sem ignorar que todo processo está sujeito ao livre convencimento motivado do magistrado e às peculiaridades do caso concreto.
A confiança do cliente nasce da honestidade intelectual. Quem fala apenas o que o cliente deseja ouvir pode conquistar uma procuração, mas dificilmente construirá uma reputação sólida. Já o advogado que orienta com clareza, equilíbrio e responsabilidade demonstra segurança justamente por não esconder as incertezas naturais do processo judicial.
Costumo dizer que a advocacia não se mede pelas promessas feitas, mas pela qualidade das orientações prestadas. Um parecer sincero, ainda que revele riscos relevantes, vale muito mais do que uma falsa certeza.
No exercício da advocacia, transparência jamais deve ser confundida com insegurança. Pelo contrário. Ela revela conhecimento técnico, respeito ao cliente e fidelidade aos princípios éticos da profissão. O advogado verdadeiramente preparado não precisa elevar a voz para demonstrar autoridade, nem fazer promessas para conquistar confiança. Sua credibilidade decorre do estudo, da experiência, da prudência e da sinceridade com que conduz cada caso.
Em tempos de relações cada vez mais pautadas pela confiança, talvez este seja o maior patrimônio que um advogado possa construir: uma reputação baseada na verdade, na competência e na responsabilidade. Afinal, o bom advogado não vende ilusões; oferece estratégia, conhecimento e uma defesa firme dentro dos limites que o Direito e a ética profissional estabelecem.
Com mais de 20 anos de atuação direta ou indireta na área jurídica, aprendi que mais importante que ser contratado, sempre será poder dormir com a cabeça tranquila. Por tal motivo, em duas décadas, nunca tive um processo administrativo junto a OAB ou judicial, em decorrência da atuação profissional, além de que, em duas gestões, como conselheiro titular na comarca, por escolha dos meus pares, através de eleição, pude, humildemente, relatar e votar nos processos disciplinares.
Penso que o caminho que escolhi, seja o esperado de todo cidadão de bem e de todo profissional que preza as legislações ligadas a sua profissão. Os novos advogados que irão atuar na profissão e na vida privada devem assim agir: com transparência e ética.
Fernando Henrique da Silveira – Advogado com Doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais; Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal, Licitações e Contratos, Formação para o Ensino Superior; Presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes de Santa Catarina – CONEN; Jornalista, radialista e servidor público estadual; Membro Consultivo da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB/SC.
