Jamil Cherem Garcia

Não sou de escrever ou comentar sobre esportes — principalmente pelas parcas habilidades técnicas —, mas sou admirador nato de algumas modalidades esportivas, como o futebol, o basquete, o tênis e o automobilismo, porém, quando se trata de futebol americano, a minha intimidade com esse esporte é praticamente zero.

Nada obstante, é quase impossível não entrar nos meandros sócio-políticos da partida que encerrou a temporada da NFL no domingo, 8 de fevereiro de 2026: o venerado Super Bowl LX — o evento que transcendeu o esporte e fez a sociedade americana refletir.

O espetáculo no estádio e fora dele

Apesar do pouco conhecimento que já mencionei, o jogo em si teve sua dose de emoção esportiva, ocasião em que os Seattle Seahawks derrotaram os New England Patriots para conquistar o título desta edição do Super Bowl.

Mas foi o sempre indescritível show do intervalo — comandado desta vez pelo porto-riquenho Bad Bunny — que dominou as manchetes e as conversas ao redor do mundo.

Bad Bunny não só escreveu seu nome na história do evento como o primeiro artista latino a liderar sozinho o espetáculo do intervalo, e o fez com uma apresentação inteiramente em espanhol, celebrando a cultura latina e os símbolos que extrapolam o entretenimento.

Cultura, identidade e a redefinição de “América”

Após quase 15 minutos de um verdadeiro espetáculo, Bad Bunny caminhou pelo gramado carregando uma bola de futebol americano com a marcante frase: “Together, we are America” (Juntos, somos América). E, em seguida, num gesto de chamamento para a união, a inclusão e a igualdade, o ídolo citou expressamente todos os 35 países do continente americano, não se limitando aos Estados Unidos e ao Canadá.

Essa escolha simbólica e histórica, feita em pleno palco da maior audiência televisiva anual dos EUA, sugeriu algo que vai além do esporte, o astro porto-riquenho, ao lançar essas palavras de união, conclamou notadamente o desejo de uma América vista como um continente plural, diverso e interconectado, afastando-se da ideia restrita de “América” como sinônimo exclusivo dos Estados Unidos.

Para muitos latino-americanos e latinos nos EUA, isso foi celebrado como uma afirmação de identidade e valor cultural num espaço em que, historicamente, as vozes latinas eram raras ou marginalizadas.

A reação política: entre críticas e orgulho latino

A performance do multifacetado artista rapidamente incendiou os canais de imprensa e as redes sociais mundo a fora.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou duramente o show, classificando-o como “terrível” e “uma afronta à grandeza da América”, alegando que “ninguém entende uma palavra do que ele está dizendo” e que o espetáculo não representaria os “padrões de sucesso, criatividade ou excelência” dos EUA (resumo feio a partir da reportagem televisiva colhida na CNN Brasil em 09/02/2026). Diferente não era de se esperar do truculento Presidente americano.

Por outro lado, figuras de diversas origens — desde comentaristas de televisão até políticos e fãs — defenderam o significado aglutinador do momento. Alguns enfatizaram que a performance não era contra os EUA, mas, sim, uma celebração de todos os que contribuíram e ainda contribuem para a construção e manutenção da sua cultura e sua sociedade.

Um outro tanto de comentaristas elogiaram a performance de Bunny por sua mensagem, mostrando que nem todas as críticas vieram de um só espectro ideológico.

Aliás, no “O Globo” de 10/02/2026, circularam especulações de que os ataques de Trump aos latinos poderia repercutir negativamente entre os Republicanos, custando, inclusive, a maioria no Congresso.

O Latino no coração da América

O que torna esse momento ainda mais significativo é a importância histórica e social dos latinos nos Estados Unidos. Latinos compõem uma das maiores e mais dinâmicas comunidades do país, presentes não só nos setores sociais e econômicos, como também na música, nos esportes, na ciência, na educação e na política. Embora nem sempre tenham o mesmo nível de visibilidade ou poder político de outros grupos, suas contribuições moldam profundamente a cultura e o cotidiano norte-americano.

Ao trazer essa presença para o centro do palco mais visto da televisão americana, e de grande parte do mundo, Bad Bunny não só celebrou sua herança porto-riquenha e latino-americana como também chamou a atenção para essa unicidade, enaltecendo a ideia de que a América moderna é um mosaico de culturas e histórias, ainda que diferentes, mas que se respeitam e se toleram.

Quando o esporte vira espelho social

Para um espectador leigo em regras e táticas de futebol americano, como é o meu caso, o Super Bowl pode parecer apenas um jogo gigante, no entanto, o que ficou evidente na edição de 2026, foi a de que eventos como este capturam muito mais do que touchdowns e jogadas memoráveis.

Eles têm o poder de espelhar as tensões culturais, os debates sobre identidade, as disputas de narrativas e, acima de tudo, a maneira como um país se vê e se define.

Ao fim e ao cabo, talvez o maior legado desse Super Bowl seja justamente esse: um convite para olhar além do jogo e ver a América como um conjunto de vozes diversas que estão, cada vez mais, encontrando palavras — ou ritmos — para se fazerem ouvir.

Conclusões

O Super Bowl LX confirmou algo que vai muito além do futebol americano, grandes eventos esportivos já não se limitam ao campo, à quadra ou à pista, funcionam como arenas em que identidades são afirmadas, disputadas e, por vezes, confrontadas.

Para quem, como eu, observa o jogo sem domínio das regras, o que salta aos olhos não é a prancheta tática, mas o peso cultural de cada gesto, discurso e reação.

A presença de Bad Bunny, com sua língua, sua estética e sua mensagem, expôs uma América que não cabe mais em definições estreitas ou exclusivistas; uma América que se construiu, e segue se construindo, com mãos latino-americanas, com sotaques diversos, com histórias que atravessam fronteiras.

Negar essa realidade não a faz desaparecer, apenas reforça a distância entre o país que alguns idealizam e o país que, de fato, existe.

É aí justamente que reside a maior ironia — e a maior força — desse Super Bowl. Mesmo para quem não entende de jardas, descidas ou touchdowns, fica claro que o espetáculo do intervalo revelou algo essencial: a América não é uma só voz, nem uma só cultura, nem um só idioma. E, gostem ou não, é dessa pluralidade que vem sua vitalidade, sua tensão constante e, paradoxalmente, sua possibilidade de unidade.

Jamil Cherem Garcia – bacharel em Direito pela Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina. Oficial de Gabinete do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Especialista em Direito Civil pela Universidade Anhanguera. Especialista em Administração Pública e Gerência de Cidades pela Faculdade de Tecnologia Internacional – FATEC. Especialista em Gestão e Legislação Tributária pela Faculdade de Tecnologia Internacional – FATEC. Especialista em Ciência Política pela Universidade Candido Mendes – UCAM. Autor de tantos outros artigos para revistas científicas e periódicos do cotidiano.