Alexandra Paglia

Quando um homem alcança uma posição relevante, o debate costuma começar por sua formação, sua experiência, suas realizações profissionais e sua capacidade para exercer determinada função.

Com as mulheres, ainda há situações em que a vida pessoal é invocada para explicar aquilo que a trajetória profissional já explica. A constatação pode parecer exagerada. Infelizmente, não é.

Nos últimos dias, o debate em torno da indicação de uma Magistrada para uma função de destaque no Tribunal Superior Eleitoral trouxe novamente essa questão à tona.
Independentemente da opinião que cada um tenha sobre a escolha, chamou atenção o fato de que, em muitos comentários e análises, sua relação afetiva recebeu mais destaque do que sua própria trajetória profissional. E aqui reside o problema.

A conceituada profissional construiu uma das mais relevantes carreiras jurídicas do país. Além de juíza de Direito, presidiu a Associação dos Magistrados Brasileiros — tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em mais de sete décadas de existência da entidade —, presidiu a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, integrou o Conselho Nacional de Justiça e idealizou iniciativas de alcance nacional em defesa das mulheres, como a campanha Sinal Vermelho contra a Violência Doméstica, posteriormente transformada em Lei, além de fundar o Instituto Nós por Elas.

Concorde-se ou não com sua indicação, é impossível ignorar que existe uma trajetória própria, pública e amplamente conhecida.
Reduzir a trajetória de uma mulher à sua condição afetiva fala mais sobre quem faz essa leitura do que sobre a mulher que está sendo retratada.

É importante fazer uma distinção. O escrutínio público sobre nomeações, indicações e critérios de escolha é legítimo. Em uma democracia, decisões que envolvem funções públicas devem estar sujeitas ao debate e ao questionamento.

Mas uma coisa é discutir critérios institucionais. Outra, muito diferente, é reduzir a identidade profissional de uma mulher aos vínculos afetivos que ela possui.

Ao longo da minha vida profissional, mais de uma vez percebi que algumas pessoas possuem mais interesse em identificar relações pessoais do que atuações ou experiências profissionais. É por isso que o caso está longe de ser uma exceção. Muitas mulheres reconhecem imediatamente essa situação.

Não costumamos explicar a reputação de um Advogado, a ascensão de um Magistrado ou a autoridade de um líder institucional a partir da pessoa com quem ele se relaciona. Não presumimos que sua competência seja resultado de uma associação pessoal. Por que, então, ainda fazemos isso com tantas mulheres?

A igualdade não significa ausência de crítica.
Mulheres em posições de liderança devem ser avaliadas com o mesmo rigor aplicado aos homens. Mas exatamente pelo mesmo rigor.

As perguntas relevantes são objetivas: qual é sua formação? Qual é sua experiência? Qual foi sua contribuição para as instituições das quais participou? O que realizou ao longo da vida profissional? Esses são os critérios que interessam a uma sociedade que valoriza o mérito e fortalece suas instituições.

Quando uma mulher independente, competente e inteligente, que ocupou posições de elevada responsabilidade, é apresentada prioritariamente por sua vida pessoal, perde-se uma oportunidade de reconhecer sua trajetória.

E, de certa forma, todos perdemos. Perde a mulher que teve sua trajetória injustamente reduzida. Perdem as instituições, que deixam de valorizar exemplos de liderança, dedicação e competência. E perde a sociedade, que continua reproduzindo padrões que deveriam ter ficado no passado.Reconhecer a trajetória de mulheres que chegaram aos mais altos postos de liderança não é favor, não é gentileza, não é concessão. É apenas fazer justiça aos fatos.

Talvez, então, o verdadeiro avanço não esteja apenas em ampliar a presença feminina nos espaços de decisão. Talvez esteja no dia em que mulheres sejam avaliadas pelos mesmos critérios que os homens: sua trajetória, sua capacidade e suas contribuições e não pelas relações afetivas que mantêm.

Alexandra Paglia é advogada