Eliana Volcato Nunes

Falar sobre etarismo não é um exercício teórico. É algo construído a partir da escuta, da observação e das reflexões realizadas no âmbito da Comissão de Equidade do Ministério Público de Santa Catarina. Nesta vivência, percebi o quanto a idade, às vezes de forma quase imperceptível, ainda é utilizada como critério para validar ou deslegitimar pessoas, ideias e trajetórias.

Na Comissão, ouvimos relatos, debatemos situações concretas e refletimos sobre práticas que, muitas vezes, se repetem sem serem questionadas. Foi nesse processo que se tornou evidente que o etarismo não atinge apenas um grupo específico. Ele atravessa gerações. Afeta quem está começando e quem já percorreu um longo caminho. Afeta estagiários, servidores, membros e residentes. Afeta as relações de trabalho e, sobretudo, o sentimento de pertencimento institucional.

Vivemos em um tempo de trajetórias profissionais não lineares. As pessoas retornam à universidade, reinventam seus percursos, recomeçam a qualquer momento. Isso se reflete claramente no cotidiano e nas relações. Convivemos com estagiários e estagiárias de idades diversas, diferentes daquelas que costumávamos ver no passado. Jovens que ingressam cedo no mundo do trabalho dividem espaço com pessoas que trazem experiências acumuladas em outras áreas e etapas da vida. Essa diversidade é real, concreta e crescente, inclusive dentro do MPSC. E ela nos desafia a rever olhares, expectativas e pressupostos.

O etarismo, muitas vezes, não se manifesta de forma explícita. Aparece quando alguém é considerado jovem demais para assumir responsabilidades ou velho demais para aprender algo novo. Surge em comentários aparentemente inofensivos, em piadas ou em decisões tomadas sem reflexão. Justamente por isso, vai se naturalizando, criando barreiras invisíveis que limitam oportunidades e silenciam pessoas.

Não por acaso, é no dia 15 de junho — Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa — que o Ministério Público de Santa Catarina inicia sua campanha interna de combate ao etarismo chama Todas as Idades Importam. A escolha da data reforça a importância de ampliar o olhar sobre as diferentes formas de violência que podem se manifestar a partir da idade, inclusive aquelas mais sutis e naturalizadas no cotidiano.

A campanha institucional nasce desse reconhecimento coletivo construído na Comissão de Equidade. Da compreensão de que promover equidade também significa olhar para a diversidade etária e assumir a responsabilidade institucional de enfrentá-la não como uma pauta acessória, mas como parte essencial da construção de um ambiente de trabalho mais justo, respeitoso e humano.

O convite é para repensarmos na forma como nos relacionamos com a idade, com a nossa e com a das outras pessoas. Escutar mais e pressupor menos. Reconhecer que competência não tem idade, que aprender não é privilégio de quem está começando e que experiência não é sinônimo de resistência à mudança.

A convivência intergeracional, quando baseada no respeito, amplia horizontes. Pessoas mais jovens são provocativas, enquanto as experientes oferecem referências, memória institucional e consistência. É nesse encontro que as instituições se fortalecem.

Combater o etarismo é um exercício cotidiano. Está na linguagem que usamos, na forma como acolhemos ideias, na disposição para ensinar e para aprender. Está, sobretudo, na consciência de que ninguém pode ser reduzido à sua idade ou à etapa da vida em que se encontra.

Ao lançar esta campanha, falo a partir da experiência de quem participou das reflexões, ouviu histórias e compartilhou inquietações na Comissão de Equidade, reafirmo uma convicção que considero essencial: o MPSC é feito de pessoas, com trajetórias plurais e tempos diferentes. Pessoas não cabem em rótulos etários. O que nos define, enquanto instituição, é a capacidade de construir relações baseadas no respeito, na escuta e na valorização das diferenças.

Eliana Volcato Nunes é Procuradora de Justiça e Coordenadora Comissão de Equidade MPSC