Entre justiça e tecnologia, o futuro da advocacia vai além dos tribunais. Por Tatiane Cavalcanti
11 de agosto de 2026

Tatiane Cavalcanti
Poucas profissões passaram por tantas mudanças como a do advogado. Em quase 200 anos desde a criação dos primeiros cursos de Direito no Brasil, em 11 de agosto de 1827, esse profissional deixou de atuar essencialmente na defesa de direitos em litígios, tornando-se um agente multidisciplinar dentro da sociedade e de organizações públicas ou privadas. Hoje, é considerado uma peça-chave e estratégica na identificação de riscos, resolução de conflitos e na prevenção de ações judiciais. As áreas empresarial, tributária, trabalhista, imobiliária e contratual continuam sendo as mais requisitadas do meio jurídico, mas as novas tecnologias fazem com que apenas o domínio da legislação específica não seja mais suficiente para o pleno exercício da profissão.
A transformação digital é uma realidade que começou há vinte anos, com a Lei do Processo Eletrônico (Lei 11.419/2006) e trilhou um caminho natural, acompanhando a evolução de uma sociedade cada vez mais adepta da tecnologia. As ferramentas digitais democratizaram o alcance da Justiça, possibilitando que advogados e cidadãos acompanhem processos, protocolem documentos e participem de audiências em qualquer lugar do mundo.
As pilhas de papel e processos com grandes volumes deram lugar, gradativamente, a arquivos que podem ser acessados e compartilhados pelo celular. Estudantes que circulavam pelas universidades com exemplares do Vade Mecum Acadêmico de Direito e suas mais de duas mil páginas, hoje utilizam documentos em PDF e livros digitais para estudar. O envio de processos e petições, que antes demandava horas entre deslocamento e atendimento presencial, agora acontece em apenas um clique. É inegável o quanto a tecnologia contribuiu para qualificar e agilizar o trabalho da advocacia, mas é preciso ter cautela para não se deixar levar, justamente, por essa facilidade.
A utilização de recursos e ferramentas com inteligência artificial (IA) vem afetando diretamente a maneira como advogados, departamentos jurídicos e tribunais operam. Sistemas automatizados para análise de jurisprudência, elaboração de minutas, triagem de documentos e estimativa de decisões judiciais já existem e são uma realidade de uso crescente, impulsionado pela necessidade de eficiência, produtividade e disponibilidade de dados jurídicos. Há empresas que estão se especializando no desenvolvimento desse tipo de tecnologia na tentativa de abarcar todas as demandas direcionadas ao jurista. Essas inovações exigem mais do que atualização constante, demandam também uma nova postura de atuação.
Por outro lado, os riscos também devem ser considerados. O uso crescente dessas plataformas fez com que novas soluções fossem desenvolvidas para identificar o uso de IA em processos do dia a dia, como triagem de documentos, elaboração de petições iniciais e contratos padronizados.
Apesar de otimizar o tempo e reduzir a margem de erro, o uso excessivo da IA — sem a devida regulamentação e por sistemas que não são preparados para tamanha complexidade — pode significar uma ameaça à proteção de dados pessoais. A falta de transparência sobre os algoritmos utilizados também deve ser tratada. Sem contar questões inerentes à ética da profissão que podem gerar dúvidas.
É preciso ter rastreabilidade e supervisão humana, especialmente, naqueles casos em que o objeto da ação envolve direitos fundamentais, e assegurar a responsabilização daqueles que fazem mau uso e se utilizam da IA para violar princípios, ou conseguir vantagem ante os demais. A legislação brasileira está avançando. É necessário ter uma abordagem colaborativa entre legisladores, especialistas em tecnologia e profissionais do Direito para que as decisões sejam claras e coerentes com as áreas, demandas e mudanças constantes da profissão.
Neste cenário, o futuro da advocacia não pensa apenas no Direito, também acompanha as mudanças globais e analisa impactos econômicos, tecnológicos e sociais. Para além do domínio técnico e legal, saber negociar, comunicar, enxergar nas entrelinhas e entender conjunturas são habilidades fundamentais para quem exerce, ou deseja exercer esse ofício, de maneira plena e qualificada. Planejamento sucessório, governança corporativa, proteção de dados, sustentabilidade e mediação extrajudicial são segmentos que fazem do advogado um profissional cada vez mais atual e necessário.
Em tempos de IA, automação e busca por produtividade, cabe ressaltar que a relevância do profissional não será medida apenas pela quantidade de processos em que atua ou vitórias conquistadas, também incluirá a resolução de conflitos antes que cheguem aos tribunais. O advogado desta era é conectado, conhecedor da legislação, conciliador e humano, tendo a Justiça sempre como propósito e caminho para contribuir com a evolução da sociedade.
Tatiane Cavalcanti é advogada, especialista em Direito Civil e mestre em Ciência Jurídica
tatiane.cavalcanti@cassociados.com.br
