Doença grave e justiça fiscal: um passo importante no caminho da dignidade, por Gisele Kravchychyn
23 de abril de 2025
Pessoas que convivem com doenças graves já enfrentam desafios diários com exames, medicamentos, tratamentos e, muitas vezes, limitações físicas e emocionais. Em meio a isso, lidar com burocracia e entraves para garantir um direito básico — como a isenção do Imposto de Renda sobre aposentadorias e pensões — parece, no mínimo, desumano.
Felizmente, o Supremo Tribunal Federal decidiu, de forma unânime, que aposentados e pensionistas diagnosticados com doenças graves não precisam mais apresentar um pedido formal ao INSS antes de recorrer à Justiça. O julgamento do Tema 1373 consolida algo que deveria ser óbvio: o acesso à Justiça não deve ser condicionado por obstáculos administrativos, especialmente para quem já vive em situação de vulnerabilidade.
Ao mesmo tempo, o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o Tema 1037, fixou entendimento de que a isenção do IR não vale para trabalhadores na ativa, mesmo que diagnosticados com alguma das doenças previstas em lei. O STJ considera que a legislação que trata de isenções deve ser interpretada literalmente, o que limita o benefício aos proventos de aposentadoria, pensão ou reforma.
Além disso, o STJ pacificou outras questões relevantes: não é preciso comprovar que a doença está ativa no momento do pedido; não é necessário laudo médico oficial, desde que haja outras provas suficientes; o benefício também alcança valores recebidos de previdência privada, quando destinados à complementação da aposentadoria.
A lista de doenças graves prevista na Lei nº 7.713/1988 inclui, entre outras: neoplasia maligna, AIDS, cegueira (inclusive monocular), doença de Parkinson, cardiopatia grave e esclerose múltipla.
Mas seguimos com perguntas que ficam no ar: por que quem está na ativa precisa tem tratamento diferenciado? A doença afeta menos porque a pessoa ainda trabalha? O que é mais justo: seguir a letra fria da lei ou olhar com mais humanidade para quem precisa?
As decisões dos tribunais trazem alívio para muitos e frustração para outros. E talvez o recado seja este: a Justiça avança, mas a legislação precisa acompanhar. Enquanto isso, informação e orientação são ferramentas poderosas. E podem fazer toda a diferença.
Gisele Kravchychyn, advogada previdenciária e vice-presidente da OAB/SC
