Affonso Ghizzo Neto

Há momentos em que uma declaração pública merece ser analisada não pelo prisma político ou eleitoral, mas pela qualidade do argumento empregado. A frase atribuída ao ministro Gilmar Mendes — “até a máfia tem ética” — oferece justamente esse tipo de reflexão.

Independentemente de quem seja o alvo da manifestação ou das circunstâncias que a motivaram, é perfeitamente legítimo defender que ninguém seja submetido ao vale-tudo, à humilhação ou à exposição indevida. O problema está no recurso utilizado para sustentar essa defesa.

Invocar a máfia como referência de “ética” é, no mínimo, uma escolha retórica contraditória e potencialmente intimidatória. Organizações criminosas não constituem parâmetro aceitável de comportamento moral ou institucional. Associá-las a uma suposta noção de ética não torna o argumento mais razoável; ao contrário, desloca a discussão de seu ponto central e introduz uma referência marcada justamente pela violência, pela intimidação e pela transgressão da lei.

Uma crítica consistente não precisa de frases de efeito para adquirir autoridade. Se a questão é defender dignidade, respeito e limites na atuação de instituições e indivíduos, esses próprios princípios deveriam ser suficientes para sustentar a argumentação.

Há, ainda, uma questão de responsabilidade na linguagem utilizada por autoridades públicas. Quanto maior a autoridade de quem fala, maior é o peso de suas palavras — e maior, portanto, a responsabilidade por aquilo que comunica. Especialmente em momentos de tensão, espera-se que a indignação não substitua a ponderação, muito menos seja expressa por meio de ameaças, agressões verbais ou referências que possam ser interpretadas como intimidação.

É possível condenar uma atitude considerada injusta, abusiva ou desrespeitosa sem recorrer a comparações que, em vez de esclarecer, produzem ruído, desqualificação e mais tensão no debate público.

No debate institucional, a autoridade de um ministro do Supremo Tribunal Federal não deveria depender da intensidade da voz ou da contundência de uma frase, mas da solidez dos argumentos apresentados. A autoridade da função pública exige, sobretudo, responsabilidade na palavra.

Talvez essa seja a principal reflexão que o episódio permita fazer: para defender a ética, não é necessário buscar exemplos justamente onde ela não deveria ser procurada — em ambientes historicamente associados à violência, à intimidação e à criminalidade.

Criticar eventuais excessos com excessos raivosos pode produzir uma ironia involuntária: a forma da crítica acaba enfraquecendo o próprio princípio que se pretendia defender.

Quando a intenção é defender limites, respeito e dignidade, a linguagem também precisa respeitá-los.

Affonso Ghizzo Neto, Promotor de Justiça, Doutor pela Universidade de Salamanca.