A outrora pacata Ilha de Santa Catarina tem vivido tempos estranhos nos últimos anos. A cidade em que todos se conheciam, se tratavam pelo apelido e se perguntavam pelos familiares mudou.

Hoje é quase impossível estar em um lugar e conhecer as pessoas. Diria, que existem duas exceções: o Berbigão do Boca e o clássico Avaí e Figueirense.

Esses fatos mostram o quanto a cidade mudou e não há do que lamentar: faz parte do crescimento. A mais bela ilha do sul do mundo, outrora dos manezinhos, é internacional!

Internacional no nome de praia, de restaurantes, de aeroporto e, lamentavelmente, dos problemas. Desde problemas simples de locomoção, poluição do nosso litoral até a violência. Não estranho que todos estes problemas são reflexo da falência do Estado, em seus diversos níveis.

Dentre os problemas cotidianos, a violência também chegou ao futebol, e, por este motivo, Ministério Público, em conjunto com a Polícia Militar, “sugeriu” torcida única nos clássicos de Figueirense e Avaí e, pasmem, foi aprovado. Afirmo: a violência precisa ser condenada e eliminada. Porém, a do futebol é muito menor que em outros setores da sociedade.

Precisamos ter em mente que o aumento da violência está diretamente ligado à ausência do Estado naquilo que o texto constitucional é claro em seu artigo 6º: “O Estado tem obrigação em fornecer: educação, saúde, trabalho, moradia”. Ou seja, o não cumprimento das obrigações sociais reflete diretamente no cotidiano das pessoas, por conseguinte, na violência.

O lazer e a segurança também estão amparados pela norma constitucional.

A “sugestão” de torcida única mostra que o Estado não está preocupado em atacar a causa do problema, abstendo-se ainda mais da sua obrigação. A torcida única é um exemplo claro desta falência.

Ademais, as experiências de torcida única não têm mostrado efeito, vide acontecimentos que ocorreram em outros Estados do país, mesmo com torcida única, como em São Paulo.

Estamos cada dia mais aprisionados, evitando sair em algumas áreas e horários, pessoas morrem nas filas dos hospitais e nossos jovens, por ausência total de educação, são facilmente cooptados pelo crime organizado que, tristemente, está presente no meio das torcidas.

Admitir a torcida única é mais uma derrota da sociedade, do esporte, da nossa cidade. É acabar com mais um símbolo da ilha. Sim à torcida mista!

Luciano Ramos de Fávere é advogado, presidente da Comissão de Direito Desportivo do Instituto dos Advogados de Santa Catarina (Iasc)