Uma licença poética pela proteção da democracia

 

Com a vitória da seleção no primeiro jogo da copa do mundo (24/11), parece ter sido possível reviver o clima de união, alegria e festividade tão peculiares ao povo brasileiro.

Os dois gols contra o time da Sérvia foram uma espécie de “extrema unção” – sacramento conferido ao católico para enfrentar uma doença grave –, àqueles “enfermos políticos” que a “epidemia” do último outubro acometeu.

Isso porque, inúmeros foram os casos, causos e acasos do “pós-eleição”. Insuportáveis, também, as manobras e jogadas – muitas delas inacreditáveis, diga-se de passagem –, de tentar reverter o que o sufrágio popular decidiu.

Assim, diante dos extremados “polos das ruas” tão desgastados pelo nocivo sentimento passional (e visceral) que a disputa presidencial causou a muitos cidadãos, paira a reflexão acerca do assombroso “Mito da Cama de Procusto”.

Na mitologia grega, Procusto era um criminoso que vivia em uma floresta e que, ao perceber algum viajante passando pelo local, amistosamente oferecia hospedagem e abrigo. Assim, o exausto peregrino poderia descansar e seguir viagem no dia seguinte. Contudo, por trás da gentil proposta residia um intento macabro.

Conta a história que Procusto oferecia uma cama de ferro para seus hóspedes deitarem e, durante o repouso noturno, ele amordaçava e amarrava suas vítimas no leito. Desse modo, se eventualmente a pessoa fosse maior que a cama, Procusto cortava os pés e a cabeça da vítima. Já se a pessoa fosse menor, o anfitrião quebrava os ossos do convidado e esticava seu corpo a fim de ajustá-lo às dimensões da sua cama.

O detalhe mitológico é que Procusto escondia uma segunda cama de tamanho diferente da primeira. Logo, ninguém nunca iria se adaptar às medidas impostas por Procusto, pois ele direcionava a vítima conforme suas vontades vãs.

A título de curiosidade e desfecho da história, Procusto durante muito tempo tentou adequar as medidas das pessoas àquelas que ele julgava ideais. Até o dia em que foi descoberto, capturado e condenado às mesmas atrocidades que ele produzira aos inocentes viajantes arrebanhados por ele.

Desta feita, percebe-se que essa imposição de padrão, vontade e comportamento – obrigando algo ou alguém a se adaptar às próprias vontades previamente estabelecidas –, evidencia uma das mais repugnantes condutas humanas: a intolerância!

Não à toa, muitos atos ou manifestações desrespeitosas à democracia e afrontosas à Constituição e ao Estado Democrático de Direito, escracham o desprezo pelas convicções alheias pelo único fato de serem contrárias às suas; assim como Procusto.

Que venha o Hexa e a serenidade de dias melhores para que, nas palavras do, também Mito Erasmo Carlos, escolhamos a primeira parte da música, pois “Quem espera que a vida, seja feita de ilusão. Pode até ficar maluco ou morrer na solidão. É preciso ter cuidado, pra mais tarde não sofrer. É preciso saber viver.”

Thiago de Miranda Coutinho é Jornalista e Especialista em Inteligência Criminal. Atualmente, é Agente de Polícia Civil em Santa Catarina há mais de 10 anos, graduando em Direito pela Univali, Coautor de três livros sobre Direito e Autor de diversos artigos jurídicos reconhecidos nacionalmente. Instagram: @miranda.coutinho_

 

GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Bertrand Brasil; 7ª edição (24 junho 1993), p.396.

MÉNARD, René (1997). Mitologia Greco-Romana 5a ed. São Paulo: Opus Editora

MENNA BARRETO, Ricardo de Macedo (2011). Do Leito de Procusto à discricionariedade judicial: as implicações do solipsismo filosófico para o direito e sua superação pela hermenêutica jurídica. Prisma Jurídico, p. 445.

NASCENTES, Antenor. Tesouro da Fraseologia Brasileira. Editora Nova Fronteira (1986), p.164.