A fake news mais cômica da imprensa brasileira não foi motivada por interesses escusos, mas por um erro involuntário e bizarro. A edição da revista Veja, com data de 27 de abril de 1983, informou que cientistas alemães haviam criado um ser híbrido do boi com tomate, o Boimate. Eles reproduziram a notícia de uma revista britânica, achando que era fato verídico. Neste caso, não houve consequências graves, embora nem sempre seja assim.

Por exemplo: uma fake news histórica, espalhada no Sul do Brasil, causou a morte de 20 mil pessoas. Notícia falsa tinha outro nome no passado: boato. No final do século XIX e início do XX, Santa Catarina e Paraná estavam envolvidos em uma disputa eminentemente jurídica pela demarcação da fronteira, na área cujo apelido passou a ser “do Contestado”.

O estado de Santa Catarina foi o autor da ação judicial, sob o patrocínio do Conselheiro Mafra, enquanto que o Paraná foi defendido por Rui Barbosa. Como toda disputa judicial, seu deslinde já se arrastava no tempo, sem se aterem os governantes e julgadores para a situação dos habitantes da região contestada que, por conta da dúvida político-administrativa, tornou-se quase como terra sem lei.

Benefícios concedidos à empresa estrangeira, aliados à carência absoluta dos habitantes da região, agora sob a liderança de um monge messiânico, criaram as condições para o surgimento de um grupo organizado e desesperado de camponeses.

Eles acamparam em Curitibanos em outubro de 1912. Foram obrigados a sair de lá por imposição das autoridades locais e estaduais, dirigindo-se para os Campos de Irani, na época pertencente ao Paraná.

Aí, então, a fake news chegaria em Curitiba e mudaria a história: “um grupo catarinense armado, com intenção de invasão para consolidar o domínio barriga verde da área, havia invadido o Paraná”. Isso era falso, mas motivou o envio de um contingente militar e o primeiro combate da Guerra do Contestado. Este foi o estopim de um conflito que durou quatro anos e tirou a vida de quase 20 mil pessoas.

O Brasil de hoje, mergulhado na polarização, com todas as chamas da intolerância acesas, é um terreno fértil para proliferação das fake news, ainda mais em época eleitoral com as redes sociais a todo vapor. As consequências, só não as antevê quem não quer, podem ser nefastas. Como evitá-las? Assim como grande parte dos males, com educação e informação de qualidade.

Luciano de Lima é um dos sócios do Ferrari, de Lima, Souza e Lobo Advogados (FLSL), escritório com sede em Florianópolis e filial em Miami.