A polarização política acentuada nos últimos anos no Brasil – notadamente por meio da rivalidade de dois lados, um de direita e outro de esquerda, evidencia generalizadamente duas convicções opostas predominantes nos espaços de embate político nacional. Quando o espaço democrático e plural de ideias se transforma numa disputa entre posições que se excluem, sem a tentativa de construção de denominadores comuns, não existem mais adversários, mas somente inimigos que devem ser combatidos e eliminados. Neste cenário polarizado o debate construtivo se faz impossível e, até mesmo, indesejado.

Constatado isso, quando analisamos os cenários que precedem as eleições presidenciais de 2022, em tempos de polarização radical entre petistas e bolsonaristas – às vezes, até violenta – também parece comum a utilização dos mesmos instrumentos de massificação da informação, ambos generalizadamente baseados em agressões verbais e a utilização repetida de fake news. É como se essas informações reproduzidas e repassadas continuamente nas redes sociais fossem ditas de formas diferentes: eu falo em nome do bem e você defende o grande mal. Pior: os instrumentos de desqualificação são os mesmos e a fábrica de mentiras é reproduzida inconsequentemente da mesma forma – mas são vistas por seus seguidores como se fossem coisas diferentes daquilo que recriminam no lado oposto. Não enxergam que estão diante de um espelho criticando no outro o que fazem diariamente sem qualquer constrangimento ou recriminação.

Pois bem, longe de discursos raivosos e agressivos comprometidos com a desqualificação generalizada de indivíduos, grupos e novos projetos políticos – baseados na “reserva de mercado” para o uso do poder público, político, econômico e de autoridade –, cumpre recordar que a estratégia de desqualificação eleitoral de adversários políticos não é instrumento novo ou incomum nas eleições brasileiras. Muito pelo contrário! No caso das eleições presidenciais de 2022, onde a situação dominante é marcada por uma polarização radical entre Lula e Bolsonaro, é interessante para ambos que a situação permaneça inalterada. Para que assim ocorra, governo e oposição podem trilhar o costumeiro caminho de desqualificação dos candidatos que se apresentem como uma nova possibilidade fora desta polarização.

Ao desqualificarem os candidatos da 3ª via que se destaquem e se apresentem como ameaças à manutenção do poder entre os candidatos polarizados, asseguram as duas únicas possibilidades de escolhas. Quando um dos candidatos da 3ª via começa a se destacar e a ameaçar esta polarização, isso poderá ser péssimo para os candidatos polarizados, especialmente quando ambos possuem índices elevados de rejeição. Uma 3ª via que se apresente como uma opção estratégica viável e diferenciada pode mudar as “regras do jogo político”. Isso bagunça a estratégia dos donos da política e ameaça os espaços ocupados tradicionalmente por políticos profissionais, tornando incerto o embate eleitoral e prejudicando a garantia da continuidade do domínio político.

Além de tumultuar as regras do jogo pré-estabelecido, o crescimento de uma 3ª via alheia aos acordos tradicionais estabelecidos entre políticos profissionais – que migram de partidos e de grupos de apoio político conforme conveniências e interesses pessoais – pode criar uma situação desconfortável para o futuro da divisão dos dividendos políticos e eleitorais pré-estabelecidos pelos grupos políticos dominantes. A política profissional, que tem uma enorme vantagem eleitoral sobre os seus oponentes, pode sofrer um duro golpe com uma candidatura estabelecida numa 3ª via fora do formato usual da política tradicional. Em situações dessa natureza restam apenas duas alternativas aos candidatos polarizados que lideram as pesquisas eleitorais: enfrentar o debate político com argumentos propositivos; ou simplesmente desqualificar, atacar e denegrir o invasor indesejado no mundo que só deveria pertencer aos políticos profissionais.

No atual quadro político polarizado, o debate franco com uma 3ª via que se destaque significa possibilitar uma derrota inesperada, não sendo recomendável estabelecer um fórum de ideias em busca da boa governança e do estabelecimento de políticas públicas necessárias para a superação da atual crise mundial, notadamente no que diz respeito à legitimidade das instituições. Portanto, para campanhas estabelecidas na polarização onde se apresentam unicamente duas possibilidades, só resta um caminho: desqualificar o adversário político. Diante da lógica tradicional dos donos da política, com ou sem polarização, quaisquer propostas ou estratégias políticas que se apresentam fora das regras do jogo político-eleitoral podem se apresentar como uma conspiração internacional ou como um perigo entrave ao desenvolvimento nacional. Para eles, em termos práticos, os eleitores brasileiros têm apenas duas possibilidades: os extremos radicais, de direita e de esquerda, que apresentam estratégias eleitorais baseadas em fake news, negacionismo e estímulo às agressões.

Polarização marcada por negacionismos que ignoram fatos e acontecimentos. De um lado, um (des)governo que, dentre outros absurdos, nega a crise sanitária mundial, a pandemia da Covid-19 e a necessidade de atenção às políticas públicas básicas. Do outro, um ex-presidente que afirma ter sido absolvido em diversos processos relacionados à Lava Jato. Só para deixar claro: a Lava Jato é real, representando uma das maiores operações contra o crime organizado, descortinando irregularidades e atos de corrupção na Petrobras e na construção da usina nuclear Angra 3, dentre outras. Com mais de 200 solicitações de cooperação internacional, a operação apurou ramificações em diversos países, como Estados Unidos, Argentina, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Dinamarca, Equador, Espanha, França, Israel, Suíça, Itália, México, Reino Unido, Rússia, Angola, Venezuela, Hong Kong, Portugal e Peru, onde o ex-presidente Alan García tirou a própria vida ao ser investigado por envolvimento no esquema com a empresa brasileira Odebrecht. Enfim, foram bloqueados bilhões de reais depositados em diversas contas bancárias, com fatos confirmados pelos próprios criminosos (em colaborações premiadas) e pelas empresas envolvidas nos esquemas de corrupção (em acordos de leniência).

As mentiras são repetidas insistentemente até que virem verdades, contando com a ajuda e a complacência e os meandros processuais do sistema judicial brasileiro. Aliás, as informações manipuladas (ou fake news) com fins eleitorais ou outros ganhos provenientes das disputas pelo poder recriam, inventam e negam os fatos, insistindo em repetir a única “verdade verdadeira”, ainda que visivelmente inexistente ou falaciosa. São inúmeros os casos recentes de fake news e de distorções manipuladas dos fatos. Denominador comum desta polarização insana, os valores basilares da política tradicional foram incorporados conscientemente de forma predatória, encontrando um terreno fértil para reprodução de hábitos individualistas, encarnados por meio de lideranças e de representantes políticos identificados com a aversão à democracia, ao público, à prática coletiva, ao espírito solidário, enfim, compatíveis com governos neoautoritaristas de direita (liberais populistas) ou de esquerda (revolucionários populistas), caracterizados por um sistema jurídico parcial baseado na ineficiência administrativa e na impunidade delitiva.

Em resumo, qualquer ameaça às “regras do jogo” estabelecidas pela atual polarização merece repulsa e proibição imediata. Indiscutivelmente, uma terceira opção que busque furar a blindagem estabelecida desta polarização parece não ser uma boa alternativa para o funcionamento tradicional dos “negócios” eleitorais-políticos. Como lembra Ronald Dworkin em sua obra La democracia posible: principios para un nuevo debate político, “estamos diante de uma cultura política deplorável, mal equipada e preparada para o desafio de conseguir a justiça social e enfrentar a ameaça emergente do terrorismo. É necessário recuperar o bom sentido e construir uma moral política e pessoal que, com seus princípios comuns a todos, substitua o desprezo e o desdém pelo respeito recíproco e o debate útil”.

Paremos, portanto, de uma vez por todas, com a reprodução destes instrumentos de exclusão e de ódio que só alimentam uma polarização despropositada e insana. Que, a partir da consideração de todas ideias e argumentos, possamos estabelecer novas estratégias políticas a serem adotadas independentemente da polarização apresentada com duas únicas alternativas possíveis. Cabe aos eleitores brasileiros, a partir da análise do comportamento político de cada candidato e as respectivas estratégias eleitorais adotadas – se baseadas em propostas propositivas ou se consolidadas em desqualificações, fake news e agressões –, dar uma nova chance ao Brasil. Jamais esqueçamos que a polarização fere de morte a democracia e elimina a esperança de construção de um país melhor, com menos corrupção e mais justiça social.

Affonso Ghizzo Neto é doutor pela Universidade de Salamanca e idealizador da campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”