Ao anunciar, no pico da pandemia de COVID-19, que os hotéis e pousadas de Santa Catarina poderiam trabalhar com sua ocupação máxima, a Secretaria de Saúde sugeriu que exigiria dos empresários do setor algo em troca: o aumento do número de leitos privados de UTI.

O Governador e seu Secretário de Saúde parecem ter lido “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado” – mas de ponta-cabeça, como que a buscar, na obra de Michel Sandel, o que não deve ser feito. De modo cativante e acessível, o professor de Harvard e da Sorbonne, estrela da filosofia contemporânea, traz inúmeros exemplos de “coisas” que, nunca antes comercializadas, passaram a ser negociadas por um punhado de dólares.

Países ricos compram das nações mais pobres o direito de poluir – os créditos de carbono. Empresas aéreas garantem aos seus passageiros mais abonados a possibilidade de furar a fila de embarque. Uma barriga de aluguel indiana custa pouco mais de 6 mil dólares. Na África do Sul, desembolsar 150 mil dólares lhe garante o direito de abater um rinoceronte negro, espécie em extinção. Em Minneapolis, é possível pagar para fugir de rodovias congestionadas. Na Califórnia, alguns infratores da lei podem reservar, por 82 dólares ao dia, uma cela especial, mais limpa e melhor frequentada.

A mercantilização da sociedade não é, segundo o sociólogo húngaro Karl Polanyi, fenômeno dos mais novos. Ela ganhou força, há cerca de três séculos, com a transformação da terra e da força de trabalho em simples mercadorias. Tempos depois surgiria a sociedade de mercado – uma comunidade inteiramente regulada pela economia.

A lógica da compra e venda já não se aplica, sustenta Michael Sandel, apenas aos bens materiais, mas governa a vida como um todo. “Às vezes”, afirma o filósofo norte-americano, “os valores de mercado são responsáveis pelo descarte de princípios que, não vinculados aos mercados, devem ser respeitados”.

O governo de Santa Catarina propôs trocar vidas humanas por algumas centenas de suítes ocupadas. O absurdo é tanto maior porque os leitos negociados equipariam a rede privada de saúde. Em um mundo tomado pelo mercado, o dinheiro compra tudo.

Marcel Mangili Laurindo é  Defensor Público de Santa Catarina em Florianópolis, mestre em Sociologia Política e doutorando em Direito pela UFSC.

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