Como faz tradicionalmente, João Marcos Buch, juiz de Direito da Vara de Execuções Penais da Comarca de Joinville e membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), enviou mensagem de final de ano para os detentos e trabalhadores da penitenciária industrial e do presídio regional da maior cidade de Santa Catarina

Confira a íntegra:

João Marcos Buch – Foto: Divulgação

Mensagem de final de ano para os detentos da penitenciária industrial e do presídio regional de Joinville/SC

As pessoas livres acham que quem está preso pensa sobre o mundo como elas pensam. Acham errado, não sabem de nada! Não sabem o que é estar preso. E eu também não sei. Certa vez, detentos de uma cela superlotada, que se revezavam para dormir e dividiam colchões, me disseram que eu deveria passar 24h ali dentro, como um deles. Esclareci da impossibilidade de isso acontecer, haja vista minhas funções de juiz, mas entendi o que eles queriam dizer, que eu deveria viver um pouco do que eles viviam. Então reconheci que não sabia o que era estar preso, ainda mais naquelas terríveis condições, mas que buscava saber, por isso sempre ia na prisão. É pensando nisso que ora escrevo para vocês, tentando me colocar nos seus lugares dentro dessas celas. Antes da pandemia eu entrava em todas as galerias, olhava diretamente para cada um de vocês e ouvia as suas questões. Não pude mais fazer isso. Assim, no dia a dia, pode parecer que estou distante de suas vidas. Não estou! Mantive e mantenho as inspeções, não entro nos corredores, mas passo pelos pavilhões e chamo os representantes para conversar. E continuo recebendo todas as cartas e ouvindo os seus familiares. Junto com a equipe que comigo atua, permaneço debruçado sobre os processos, para que prazos sejam cumpridos e ninguém fique preso acima do que a sentença condenatória determinou. Sei que neste ano de 2020 as coisas pioraram. A fé na democracia parece já não alcançar a todos os brasileiros. Mas a mim ela nunca abandonou. Acredito cada vez mais no respeito às leis, leis essas que um dia serão aplicadas, para que todo detento tenha direito à alimentação suficiente, vestuário, trabalho, saúde, educação, direito à integridade física e moral. Em resumo, luto pela defesa das garantias fundamentais de quem está preso e isso não é uma escolha, mas um dever. Já disse na mensagem do final do ano de 2019 e, sem medo de ser taxado de defensor de bandido, olhado de canto de olho e hostilizado por parte da sociedade, repito mais uma vez: como juiz da execução penal meu dever constitucional é derrubar os muros levantados pela injustiça e pelo preconceito. Um dia as prisões deixarão de existir e no lugar delas haverá escolas. Peço que confiem em mim, no meu trabalho. Desejo que esta mensagem chegue em cada cela e nas mãos da cada um de vocês, trazendo-lhes algum alento. Como canta Emicida em sua poesia “AmarElo”, “tenho chorado pra cachorro (belo é o sol que invade a cela), Ano passado eu morri, Mas esse ano eu não morro”. A vida pode melhorar.
Que a felicidade nos sorria.

Fraterno abraço.

Mensagem de final de ano para as trabalhadoras e trabalhadores do sistema prisional da comarca de joinville/SC

Os olhares da Justiça devem se destinar também a quem trabalha nas prisões, que é sujeito de direitos e merece reconhecimento. Este ano nos desafiou nossas vidas com maior amplitude e gravidade. No âmbito carcerário as dificuldades foram ainda maiores. Vocês, trabalhadores do sistema, viram-se na linha de frente da manutenção da normalidade, saúde e segurança da população prisional, quando normalidade, saúde e segurança era o que menos se encontrava no mundo. Mas também neste ano aprendemos mais sobre o que é coletividade e responsabilidade de um para com o outro. Em todas as vezes que fui na penitenciária industrial e no presídio regional, senti em vocês a disposição para seguirem adiante, não importavam as contingências que viessem a aparecer, percebi uma atenção redobrada, um cuidado maior no trato pessoal, enfim, uma incansável disposição para bem cumprir com seu mister. Portanto, quero aqui, novamente, com mais ênfase, agradecer pelo empenho de todos neste ano de 2020. Renovo meu desejo de boas festas, com muita saúde e felicidade. A pandemia persiste, com mais virulência, mas se nos cuidarmos e seguirmos o que a ciência diz, o mundo voltará a brilhar em 2021.
Fraterno abraço.

 

Joinville, 16 de dezembro de 2020.
João Marcos Buch
Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais da Comarca de Joinville