A coluna de hoje é sobre as eleições de domingo, que aparentemente impuseram uma forte derrota sobre a antipolítica, plataforma que pelo menos desde 2016 vinha ganhando força nos pleitos eleitorais brasileiros, paradoxalmente. O fenômeno é mundial, mas parece ter virado café frio no Brasil. Será? Faço uma análise breve por campos políticos, mais por recreio próprio do que por rigor técnico, sobre esse tema e outros sinais importantes dados no primeiro turno da eleição municipal de 2020.

O bolsonarismo parece ter sido parcialmente derrotado nessa eleição. Para fazer uma comparação, relembro que em 2018 alguns candidatos do PSL foram eleitos simplesmente porque deram a sorte de nascer com a inicial de letra A e, por isso, figuraram com mais destaque nas listas de papel de candidatos nas seções eleitorais. Em 2020, os candidatos indicados por Bolsonaro no Facebook/Twitter sequer se elegeram. O que houve? Nas principais disputas, figuras e partidos tradicionais levaram o voto de confiança do eleitor, que assistiu nos últimos anos os caminhos tortuosos da negação da política.

Quais caminhos são esses? A começar pelo Governo Federal, que somente ganhou cara de governo quando passou a fazer política com o Congresso Nacional e fugiu das ameaças concretas de impeachment. Foi admitindo que o Legislativo existe, dialogando com o centro político, que o Governo passou a respirar e assumir uma agenda (relativamente, muito relativamente) positiva. Por outro lado, Santa Catarina e Rio de Janeiro deram mostras de que a ausência de habilidade para acomodação de interesses conflitantes do Poder Legislativo pode levar governantes à beira da ruína. A nova política antipolítica, sobretudo de viés conservador, foi posta sob um teste funcional e parece ter sido reprovada, ao mesmo tempo em que não entregou grandes realizações capazes de gerar mudanças significativas para a estabilidade econômica do país, nem para diminuir a desigualdade social regional ou resolver o problema da criminalidade urbana.

Neste particular, ao menos em termos qualitativos, os candidatos bolsonaristas “puros”, daqueles caricatos e verborrágicos que desprezam a “política tradicional”, tiveram desempenho abaixo da média nos grandes centros urbanos. Deram lugar aos candidatos de centro-direita tradicionais, de vernizes democráticas e civilizadas, a exemplo de Bruno Covas. Este é um novo paradoxo desses tempos estranhos: a decência, os bons comportamentos, parecem antagonizar com o “conservadorismo” da alt-right, mais habituada aos impropérios lacradores.

É o fim do governo Bolsonaro? Seguramente não. Jair Bolsonaro, como figura eleitoral, pode ter perdido peso. Já o governo Bolsonaro enquanto instituição sai ganhando ao menos em curto prazo, diante do fortalecimento da sua base de sustentação no Congresso Nacional, dada a largada vitoriosa do Centrão no primeiro turno. DEM, PP e PSD foram partidos que cresceram destacadamente no último domingo e provavelmente contribuirão com o Governo Federal nos próximos 2 anos, com apoio de prefeitos de todos os estados da federação.

Destaco o uso do termo “curto prazo”, porque o Centrão caminha com o vento. Fiel da balança, é um polo político que ajuda a dar sustentabilidade aos governos, para bem ou para mal. Já fez isso com a esquerda, centro-direita e direita. Atire a primeira pedra quem nunca em Brasília, sendo Governo, fechou com o Centrão. (Aliás, quando está com a direita, é chamado de Centrão; quando flerta com a esquerda, é anunciado como Centro Democrático. Mas isso é assunto para outro texto).

O ponto é que o vento pode mudar em médio prazo. Até 2022 pode pender para a esquerda (dificilmente, convenhamos) ou encanar no próprio centro, centro-direita, a depender das janelas que forem abertas entre esse período. Hoje governo, o Centrão pode virar uma pedra no sapato do bolsonarismo, se tornando um concorrente competitivo e revigorado pela afirmação da política sobre a antipolítica, ou se autopulverizar entre candidaturas que vão variar no arco ideológico da direita, que hoje, tal como a esquerda, se encontra fragmentado e pode dispersar fatias eleitorais importantes.

Outro aspecto a ser considerado é a particularidade de uma eleição municipal e o pouco que ela tem a dizer sobre uma eleição presidencial. Apesar de 2020 ter sido uma derrota pontual, vejo com certo ceticismo a ideia de que o bolsonarismo esteja entrando numa espiral de degradação política. Afinal, em 2016 o PSDB saiu vitorioso das eleições municipais e todos nós sabemos o que aconteceu com os tucanos em 2018, na disputa presidencial. Isso sem contar que na disputa municipal o debate tende a se concentrar em problemas locais, onde emerge a força das associações de bairros, dos comerciantes, funcionalismo público municipal etc, que não refletem com tanta intensidade o comportamento do eleitor sobre as grandes questões nacionais que estarão em pauta em 2022.

Curiosas são as análises sobre a esquerda, todas sugerindo que o PSOL substituiu o PT, apesar de o PSOL ser quantitativamente menor que o PT. Vale lembrar que em 2016 aconteceu a mesma coisa, com Freixo indo para o segundo turno no Rio de Janeiro e o PSOL reivindicando o trono do campo progressista. Em 2018, lá estava o PSOL lançando uma candidatura para Presidência da República que terminou em 10º lugar.

No entanto, vamos com calma, é impossível negar que o desempenho do PSOL foi surpreendente. Afinal, de 10º lugar em 2018, Boulos ficou em 2º em São Paulo em 2020. Política é um processo de acumulação de força e o PSOL vem fazendo isso direito. A sigla elegeu um número considerável de vereadores nas capitais, foi para o segundo turno em Belém e na cidade-Estado de São Paulo, onde a eleição é nacionalizada. Com isso, o PSOL se consolida mais uma vez como um dos principais atores políticos da esquerda brasileira. Mas não substitui o PT, que ainda continua muito maior que o PSOL, embora tenha sua hegemonia ameaçada pela nova configuração de poder do campo progressista, que tende a se horizontalizar em termos de força política.

As previsões que indicam o PSOL como substituto do PT erram não por conta do PSOL, mas por subestimar um player mais relevante no tabuleiro, o PDT. Explico. Comparativamente, o PT foi mal, mas teve lá suas vitórias. Elegeu um número considerável de vereadores em São Paulo, por exemplo, e foi a agremiação que mais levou candidatos ao segundo turno no Brasil inteiro. Por outro lado, o PDT obteve mais prefeitos e vereadores que o PT. Consideravelmente mais. Segundo o UOL, PDT elegeu 306 prefeitos, PT 174; PDT elegeu 3.369 vereadores, PT 2.600. O PDT foi o partido de esquerda que mais elegeu prefeitos no Brasil e esse cenário não vai mudar mesmo que o PT eleja todos os candidatos que foram ao segundo turno. Nem preciso lembrar que PT e PDT vem medindo força publicamente desde a vez em que Lula costurou um acordo com PSB e PCdoB para isolar Ciro Gomes em 2018.

Tudo indica que a disputa pela hegemonia da esquerda deflagrada no período pré-eleitoral de 2018 se agravará acentuadamente nos próximos tempos entre brizolistas e Partido dos Trabalhadores, apesar de Lula e Ciro Gomes terem conversado há pouco tempo para apaziguar os ânimos entre as siglas. A senha da reabertura do conflito foi dada pelas fagulhas trocadas entre Benedita da Silva (PT), Martha Rocha (PDT) e seus respectivos eleitores no Rio de Janeiro, todos em busca de um bode expiatório que explique a esquerda não ter ido para o segundo turno na capital fluminense.

Petistas já provocam Ciro Gomes, questionando em público se o pedetista apoiará Boulos, Covas ou irá para Paris. Nenhum sinal de paz no front, nem que haverá frente de esquerda, muito menos frente ampla. Mas ainda é cedo, o momento é das brigas de narrativas, de colocar a culpa no outro enquanto calculam as baixas. Logo mais entra o ano de 2021 e com ele possivelmente novas fusões partidárias. Quem sabe possam atenuar algumas mágoas.

5 mulheres na Câmara

Um comentário especial sobre a Câmara Municipal de Florianópolis, que será integrada por 5 novas vereadoras (9, se contarmos todas as covereadoras) a partir de 2021, um feito histórico e inédito. Especialmente a vitória de Manu Vieira (NOVO), Carla Ayres (PT) e da candidatura coletiva Bem Viver (PSOL), representada pela vereadora eleita Cíntia, promete uma oxigenação do debate político na capital catarinense. São candidatas que, embora estejam em polos opostos, representam ideias programáticas de partidos políticos distintos. Num Legislativo em razoável funcionamento, pessoas discordam em razão de programas, não de pessoas. Nessa direção, a nova composição da Câmara Municipal parece ter dado um passo de amadurecimento político.

Isaac Kofi Medeiros – Colunista do JusCatarina. Advogado, mestre em Direito do Estado pela UFSC, membro do Grupo de Pesquisa em Constitucionalismo Político da UFSC e autor do livro “Ativismo judicial e princípio da deferência à Administração Pública” (2020).

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