Daniel Klein

As manifestações de doenças infecciosas que provocam o isolamento da população afetam significativamente o mercado. Seja de tamanho global ou um pequeno varejista, os impactos podem ser os mais diversos em virtude das séries de rompimentos da cadeia de suprimentos, o abseteísmo prolongado dos trabalhadores, a abstinência de consumidores e até mesmo de mortes.

Considerando que nenhuma organização está intocável à consequências da pandemia instaurada pelo COVID-19, resta à elas, momentaneamente, aplicarem esforços consideráveis com o intuito de minimizar impactos, observando as diretrizes enunciadas pelos órgãos governamentais da saúde.

As ameaças são inerentes ao ambiente organizacional e isso potencializa a adoção de estratégias que possam reduzir impactos pois, a depender do tipo de negócio, exige-se prioridades e respostas distintas. E nesse contexto, um programa de compliance surge como uma apta ferramenta organizacional.

Crucial na gestão de incidentes, com os instrumentos de compliance poder-se à, por exemplo, garantir que a organização esteja cumprindo e adequando-se às medidas de órgãos externos estabelecidas no combate à pandemia, preservando a vida de seus funcionários e demais cidadãos. Também é possível a criação de códigos de conduta específicos para determinada situação, com esclarecimentos de medidas e informações que possam diminuir a propagação do vírus, como também a realização contínua de treinamentos.

A pandemia causada pelo COVID-19 provocou às organizações o acionamento emergencial de seu plano de gestão de riscos. De acordo com a metodologia Análise de Risco Parametrizada, alinhada com as melhores práticas do mercado, como a ISO 31.000, COSO, ISO 27.000, ISO 28.000, o gerenciamento de riscos consiste na aplicação de princípios e processos para identificação e avalição de riscos ao planejamento, à implementação e ao controle de respostas aos riscos. Porém, a menção da Metodologia à riscos de fatores externos, como é o caso desta pandemia, ultrapassa o conceito de risco e é colocada como “perigo”, por se tratar de uma condição insegura, de danos materiais e imateriais, normalmente ligada a situações que podem gerar ameaças ou consequências graves para vida ou segurança física das pessoas, desconsiderado ainda qualquer vulnerabilidade da organização.

Mesmo que a crise pandêmica represente uma baixa probabilidade de acontecimento, considerando sua quantificação em termos de probabilidade (frequência) e impacto (severidade) dentro de uma ferramenta visual, como a matriz de riscos, sua elevada gravidade impacta profundamente com perdas de vidas humanas, destruição de investimentos, desorganização social, dentre outras. Portanto, acontecimentos desse gênero não devem ser ignorados dos planos de gestão de riscos, mesmo que as situações possam estar, ou não, no controle das organizações.

Uma organização adepta a um programa de compliance e estruturada com um plano de gestão de riscos, certamente numa situação emergencial como a pandemia do COVID-19, poderia rapidamente criar um sistema de gerenciamento de emergências que conduzisse a organização a dar respostas rápidas aos funcionários evitando pânico e informações conflitantes, como também a indicação de membros do setor administrativo responsáveis pelas primeiras tomadas de decisão.

Certamente as incertezas que as organizações sofrerão serão os grandes desafios à serem enfrentados. Quando os impactos advém de fatores inesperados e que causam um enorme abalo econômico e especialmente humano, é necessário agir de forma racional. Ao profissional de compliance cabe repensar como a organização poderá propiciar as condições para que os objetivos estratégicos sejam atingidos, sempre dentro de um limite de tolerância, organização e humanidade.

Daniel Klein, advogado. Especialista em Estruturação e Gestão de Políticas de Compliance. Email: danielklein@outlook.com.br