Nas aulas de história, dentre as rebeliões e revoltas que estudávamos no início do período Republicano do Brasil, uma chamava especial atenção por seu caráter bizarro: a Revolta da Vacina. Imaginar as pessoas se rebelando contra a vacina da varíola, ao crer que ficariam com doenças similares aos do boi usado em sua elaboração, ou ainda, com feições bovinas, parecia uma demonstração do atraso e ignorância do Brasil daqueles anos.    Lembre-se que houve prisões, degredos, 31 mortes e rebelião de 2.000 cadetes do quartel da marinha da praia vermelha, no Rio de Janeiro (e isso que o whatsapp ainda demoraria 113 anos para ser criado). Os revoltosos venceram o sanitarista Oswaldo Cruz, líder da campanha de vacinação,  pioneiro no controle de pestes no Brasil. A vacinação foi interrompida, tendo por resultado cerca de 10.000 mortes por varíola nos anos posteriores.

Mas como dizia Roberto Campos: a ignorância no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor. Eis que, em tempo de pandemia mundial, há quem pregue que se ignorem todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde para prevenir uma pandemia que, ao contrário da varíola, não possui vacina. E claro, a inefável conspiração chinesa, segundo a qual o vírus foi criado em laboratório pela a sinistra China Comunista (!!) como estratégia para dominar o mundo. Os brasileiros de 1904 eram 73% analfabetos. A ciência e a  universalização da educação avançaram de lá até hoje mais do que em qualquer período da história. Temos a internet, com todo o saber humano a um click. Então há que se perguntar, como aquele personagem de Jorge Dória: onde foi que eu errei?

Erramos ao imaginar que a tecnologia por sí é algo bom. Não, ela não é boa, nem má. Ela é um instrumento poderoso. Como o vírus, que não é de direita nem de esquerda e não trama contra governos: ele é pura vontade de poder. E as redes sociais possuem um lado sinistro. Os algoritmos só nos dão o que mais visualizamos, contribuindo para a sectarização da sociedade, a cegueira, e em último caso a fanatização. Besteiras e imbecis invadem as telas, gente que não estudou, não se preparou para falar sobre o tema, mas fala. Conjugam apenas o verbo impactar. Ou causar ou lacrar, enfim chamem como quiser. Como no célebre tango argentino cambalache que diz: hoy resulta que es lo mismo; ser derecho que traidor; ignorante sábio, chorro; generoso o estafador; todo es igual; nada es mejor; lo mismo un burro; que um gran professor. E há os que aprenderam a manipular o sistema em seu favor.

Curioso é que, em vez de nos iluminar com sabedoria, as redes sociais estejam nos dividindo em bolhas, em lampejos de uma nova idade média. E só pra lembrar, foi a escuridão, a anti-ciência praticada na idade média que ajudou em muito a propagação da Peste Negra, mas isso já é outra estória. Nos desculpem brasileiros de 1904, pelas ironias dos professores de história sobre a Revolta da Vacina. Há gente por aqui, neste 2020 tão distante, negando a ciência em nome da escuridão, dançando sobre o abismo e desdenhando a morte de idosos e doentes: uma nova eugenia. Por sinal, o Instituto Científico que coordena toda a resposta e pesquisa sobre a pandemia no Brasil chama-se Oswaldo Cruz. E isso é um alento. Quem está ao lado certo da história permanece, outros vão à la basura. Vamos vencer isso, com muito sangue, suor e lágrimas, como falava Churchill, que nos liderou no maior desafio da história, até aqui. Há! Churchill… Mas isso também já é outra estória.

 

César Souza Júnior é advogado, doutorando em Direito Constitucional, ex-prefeito de Florianópolis

0