É muito comum que o jovem advogado saía da faculdade e tenha vontade de atuar no tribunal do júri. Quando ainda estava no terceiro semestre da graduação passei a pensar no dia em que exerceria a plenitude de defesa no plenário. Graças a oportunidade concedida por um grande amigo e brilhante advogado, Dr. Matheus Trindade, também colunista deste Canal, pude começar cedo a minha vida no júri.

Com menos de meio ano de advocacia, já havia feito dois júris, tendo absorvido grande parte dos ensinamentos através da análise crítica de colegas que estavam me assistindo.

Mas a verdade é que a preparação para o meu primeiro plenário começou muito antes de eu saber que iria estrear no tribunal do júri.

No terceiro semestre da faculdade de direito, assisti o primeiro júri da minha vida. Na arena dos argumentos, se digladiavam dois brilhantes tribunos, um promotor de justiça e um advogado de defesa. Desde então, passei a assistir sempre que tinha disponibilidade. E quando não tinha, arrumava um jeito de ter. Já viajei mais de 400 quilômetros só pra assistir um júri.

Então, a primeira dica para aqueles que desejam ter um bom desempenho em plenário é: assistam muitos júris. Assistam os júris muito bons, os bons, os ruins e os péssimos.

Desde a faculdade, quando matava aula para assistir os debates, até hoje assisto todos os júris que posso. No fórum da comarca onde moro, sou conhecido pelos servidores como “rato de júri”. Essa prática me possibilitou ver tribunos dos mais diversos estilos, dos mais técnicos até os que utilizam um timbre de voz mais alto – popularmente conhecidos como “gritões”. Percebi, assim, que não existe um jeito certo de fazer júri, mas que há vários estilos diferentes, e que o bom tribuno é aquele que fala com naturalidade, que não copia ninguém.

Ainda neste ponto, mas entrando numa questão mais pragmática, quando o magistrado singular designar a data do primeiro plenário, é importante assistir, pelo menos, 3 júris do representante do Ministério Público que estiver atuando no processo.

Assim como há diferentes advogados de defesa, o mesmo pode ser dito para os promotores de justiça. Existem aqueles que são mais técnicos, os que utilizam mais da retórica e os que se apropriam mais do discurso do medo. É importante saber contra quem se está lidando. Conhecer as metáforas, as citações, as frases de efeito utilizadas é um bom caminho. Até para, se possível, usar das armas da acusação em benefício da defesa.

A segunda dica para os jovens advogados e acadêmicos de direito é com relação à bagagem literária. É importante ler muito e de tudo. Um grande amigo e brilhante advogado certa vez escreveu que os melhores livros sobre o tribunal do júri não são sobre o tribunal do júri, mas sobre a alma humana.

Por isso a necessidade de ler Shakespeare, Kafka, García Márquez, Galeano, Miguel de Cervantes, Rubem Alves, Vinicius de Moraes. Enfim, ler de tudo. É óbvio que é magnífico e altamente recomendável ler Evandro Lins e Silva. Mas não podemos esquecer da literatura clássica. Afinal, o tribuno nada mais é do que um contador de histórias. E só pode ser um bom contador de histórias aquele que lê as melhores histórias.

A terceira dica, e talvez a mais importante, é em relação ao preconceito que o jovem advogado vai enfrentar quando entrar no salão do tribunal do júri.

Num ambiente tomado pela vaidade, é muito comum que a tenra idade chame atenção de forma negativa. A notícia boa é que é possível virar esse jogo.

Ninguém gosta de ser subestimado em razão de sua juventude ou de sua inexperiência. Mas é preciso pensar de modo racional e lembrar que não existe espaço para vaidade no tribunal do júri, pois é a liberdade de alguém que está em jogo, e que apesar de atingir diretamente o nosso ego, não é ruim ser subestimado.

Citando caso análogo, conto a história de um conhecido advogado baiano. Um dos grandes tribunos do país, dono de uma oratória singular e de uma presença invejável, sempre que ia atuar no tribunal do júri o Ministério Público montava uma “bancada” de acusação formada por mais de 3 promotores que liam cada vírgula do processo. Depois de ficar famoso pelo seu desempenho impecável, dificilmente alcançou o resultado desejado.

Ao contrário do que acontece com advogados famosos, a tendência é que o promotor de justiça subestime o jovem advogado e não empregue tanto esforço em sua sustentação.

Para fins de ilustração, me socorro do futebol: recentemente o Grêmio perdeu para o Caxias na final do primeiro turno do Campeonato Gaúcho. Todos sabemos que a camiseta do tricolor gaúcho é muito mais pesada que a do Caxias. Contudo, os jogadores do time da serra deixaram a vida em campo e conseguiram obter o resultado pretendido.

Da mesma forma que os jogadores do time de Caxias do Sul jogaram, o jovem tribuno deve se comportar. Se para o acusador oficial aquele será só mais um júri “fácil”, para o jovem advogado tem que ser o júri da sua vida.

Ainda em relação à inexperiência, não é nada incomum que, no meio da sustentação da Defesa, sobretudo quando o advogado está fazendo um bom trabalho, a acusação faça uso exagerado dos apartes com o intuito de quebrar o raciocínio lógico do Defensor. É preciso estar preparado para isso. Se estiver surtindo o efeito desejado pela acusação, faz-se importante demonstrar para os jurados qual a real intenção do acusador oficial: atrapalhar o pensamento do advogado de Defesa.

E se porventura o Promotor de Justiça fizer menção à idade do advogado, esse é o momento de demonstrar conhecimento do processo e ressaltar que o julgamento diz respeito a um fato, não à idade do Defensor. Nenhuma provocação é de graça. A real intenção da acusação com essas manobras será sempre desestabilizar o jovem tribuno.

Por fim, o nervosismo é inerente ao Estado de Júri. Quem não treme não se importa. É importante dosar e utilizar o Estado de Júri ao seu favor. A responsabilidade é muito grande para não sentir o seu peso.

Matheus Menna é advogado criminalista

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