Ramicés dos Santos, especialista em segurança da informação

Hoje, 28 de janeiro, é o Data Privacy Day (Dia Internacional da Privacidade) ou, na Europa, Data Protection Day (Dia da Proteção dos Dados Pessoais). Nesse dia, os países intensificam as campanhas de conscientização quanto à melhoria das práticas de privacidade e proteção de dados. No Brasil, em especial, o ano de 2020 é muito importante pois em agosto entra em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Para que possamos entender melhor o cenário mundial, onde vivemos na sociedade da informação, é importante entendermos o quanto nossos dados têm valor. Para tal, me permitam resgatar um fato histórico para ilustrar nossos exemplos: a corrida pelo ouro.

Mundialmente, em períodos e regiões distintas, observou-se a busca desenfreada por um metal bastante valioso no mercado, o ouro. No Brasil, ainda no século XVII, enquanto colônia de Portugal, a região de Minas Gerais provocou um abrupto interesse por apresentar grandes quantidades do “nobre” metal. A mais famosa corrida pelo ouro em terras nacionais foi no estado do Pará, ainda no início da década de 80. A Serra Pelada atraiu multidões em função da possibilidade de ganhos financeiros com a descoberta.

“Os dados são o novo ouro”. A frase já virou clichê e nunca fez tanto sentido. Agora a corrida pelo novo ouro, tal qual ocorreu com o nobre metal no passado, se dá com o uso das plataformas de redes sociais e mineração (não é à toa o termo) de uma infinidade de dados por meio da tecnologia de Big Data. Casos de manipulação de massas vieram à tona onde eleições foram impactadas pelo uso mais rentável deste valioso ativo, o dado pessoal.

O que pudemos observar foi uma corrida pelo novo ouro, nossos dados pessoais, onde plataformas de empresas pelo mundo passaram a utilizar diversas fontes com objetivo de extrair cada vez mais valor dessas informações. Aplicativos que armazenam sua geolocalização, sites que registram todos os seus acessos, jogos que traçam seu perfil de jogador, plataformas de e-commerce que sabem exatamente que produto lhe oferecer (e pelo preço que você está disposto a pagar em função de seu estado de “espírito”). Estamos na nova Serra Pelada, em meio a uma mudança de cultura onde precisamos entender e proteger um novo ativo muito valioso em nossa sociedade.

Sim, nossos dados têm muito valor e por meio deles nosso perfil é traçado e utilizado para direcionar campanhas de marketing ou mesmo nos fazer mudar de opinião sobre algum assunto. Mas existem ainda implicações mais graves caso não tenhamos consciência da importância da proteção de nossos dados pessoais. Podemos imaginar uma situação hipotética, mas que pode perfeitamente ser real.

Como exemplo, podemos ter em mente um rapaz de 38 anos chamado Privatto. Ele é ativo nas redes sociais e adora fazer cadastros em todos os estabelecimentos por onde passa. O jovem acaba fazendo de suas redes sociais um diário onde tudo é postado – do casamento ao nascimento do seu filho e suas atividades diárias. Por gostar muito de festas com os amigos não é raro fotos de encontros e confraternizações regados a vinhos e outras bebidas mais excêntricas.

O que Privatto não imaginava é que depois de algum tempo ele teria dificuldade para renovar seus seguros pelos valores que estava habituado. Ao tentar fazer uma plano de saúde, estranhou que, ao comparar com o plano de um amigo da mesma idade, o seu era mais que o dobro do valor. Seu perfil nessas empresas tinha sido “contaminado” por informações que ele sequer sabia que eram usadas para tal.

Proteção de dados pessoais é mais que um direito e deve sim ser tratado como uma estratégia de soberania nacional onde a regulamentação faz com que todos melhorem seus mecanismos de proteção e governança dos dados. No dia internacional da Proteção de Dados precisamos entender de uma vez por todas que quanto mais valioso é um ativo em nossas vidas ou empresas mais precisamos cuidar dele.

Para tal precisamos fazer cada um a nossa parte. Como pessoas, precisamos ficar atentos aos serviços e aplicativos que pedem nossos dados Como profissionais, temos que estar atentos às rotinas do nosso dia a dia de trabalho que envolvem dados pessoais. Como empresários, precisamos, sim, iniciar imediatamente a jornada de melhoria de maturidade quanto à proteção dos dados pessoais que são tratados dentro das empresas.

 

Ramicés dos Santos é cientista da comunicação e especialista em segurança da informação