Promotor de Justiça Affonso Ghizzo Neto

Em sua obra “The Banality of Evil”, Hannah Arendt observa como os crimes nazistas extrapolaram os limites do ordenamento vigente, reconhecendo em Adolf Eichmann a face mais obscura e inesperada do mal: a “banalidade do mal”. Certamente não quis dizer que o mal, em si, é banal e, como tal, dentro de certa normalidade, deve ser previsto e aceito. Na verdade, apenas identificou algo improvável, qual seja, uma nova forma de atrocidade (des)humana que consegue passar uma normalidade aceitável socialmente.

Dito isso, em tempos crescentes de polarização ideológica (“direita” e “esquerda”, “intelectuais” e “ignorantes”, “legalistas” e “garantistas” etc.) e da ostentação absurda de discursos ideológicos nacionalistas – veja o exemplo do ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, ao se apropriar da fala do nazista Joseph Goebbels – o imaginário totalitário moderno pode ser mais facilmente identificado e visível. Todavia, a “banalidade do mal”, resumida na falta da capacidade mental de pensar e refletir individualmente em relação a cada situação específica concreta, enfim, de se colocar no lugar do outro, pode ser compreendida modernamente através da adoção universal de soluções totalitárias independentes da existência de Estados-Nacionalistas ou “líderes” totalitários como Joseph Goebbels.

A superficialidade do pensamento e do debate polarizado contemporâneo, esta sim, deve causar maior preocupação e revolta, notadamente em sociedades como a brasileira, onde a “banalidade do mal” se vale de frases “clichês” – de direita ou de esquerda – para enfrentar o confronto imaginário entre “nós” versus “eles”, criando o inimigo imaginário necessário para a manipulação do poder. Se assim for, sem perceber e, o que é muito pior, estamos colaborando para a realização de mais um imaginário atroz que se torna realidade, com a exclusão de milhares de seres humanos descartáveis, supérfluos, estorvos sociais, bichos sem cidadania, sem direitos e sem dignidade.

Portanto, o perigo contemporâneo da “banalidade do mal”, muito além de discursos imbecis e expressamente totalitários, como aquele proferido por Roberto Alvim, é reproduzido no imaginário de muitos “cidadãos democráticos” (de direita ou de esquerda) que, ainda com discursos retóricos libertários, alimentam a superficialidade dos debates polarizados, reforçando a conspiração silenciosa levada à cabo através de novos instrumentos totalitários imperceptíveis ao olho nu, normalizando – bem debaixo de nossos narizes – a aceitação da existência de seres humanos de “segunda classe”, supérfluos, sem direitos, refugiados, bichos excluídos do mundo “civilizado”

Affonso Ghizzo Neto é Promotor de Justiça e Idealizador da Campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”