O América Mineiro, carinhosamente chamado de Coelho, passou boa parte do campeonato na última colocação da Série B. Em determinado momento, conseguiu uma arrancada sensacional, saindo da lanterna e parando no topo da tabela. Na última rodada do campeonato, precisava apenas vencer um jogo em casa contra o minúsculo São Bento, que acabou caindo, para subir à Série A.

A bem da verdade, com o resultado que terminou acontecendo entre Sport e Atlético Goianiense, o América precisaria tão somente de um empate para subir, numa campanha que ficaria eternizada na história do time mineiro.
Entretanto, de modo inacreditável, o Coelho achou um jeito de PERDER o jogo no INDEPENDÊNCIA – estádio do clube mineiro – para o São Bento.

O mais triste de tudo é que, no último lance da trágica partida, o ponta do América foi até a linha de fundo, se deslocou até a pequena área, cruzou a bola para o atacante que, com o goleiro já fora da jogada, bateu errado e perdeu a oportunidade com o gol vazio.

Com todas as limitações de dois times que disputam a Série B, posso afirmar que foi um jogo memorável. Ambos os times lutaram até o fim, ainda que por objetivos diametralmente opostos. Se de um lado o América Mineiro precisava apenas de mais um gol para, incrivelmente, subir para a Série A do Campeonato Brasileiro, de outro o São Bento necessitava de uma combinação de resultados para permanecer na Série B, os quais não aconteceram.

No fim das contas, os 22 jogadores deixaram o gramado chorando e, ainda que os dois times tenham perdido, todos os torcedores do estádio aplaudiram de pé a atuação daqueles que jogaram com o coração na ponta da chuteira. Foi de cortar o coração.

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No dia 29 de outubro de 2019, tive a oportunidade de ombrear um dos melhores advogados criminalistas do país, meu querido amigo Ezequiel Vetoretti, num caso envolvendo um homicídio no estacionamento do Floripa Shopping.

O próximo júri é sempre o mais difícil e o mais importante. Aprendi isso. Mas este do qual estou falando teve um toque especial: me envolvi emocionalmente com a história de vida do acusado e de sua família.

Assumi o caso um mês antes do plenário. Quando li a primeira vez o processo, pensei que a absolvição seria impossível, que no máximo conseguiria afastar uma das duas qualificadoras que ao réu eram imputadas.

Após ler, reler, tresler o processo e manter conversas com o acusado, montei as teses de defesa: excesso exculpante de legítima defesa e homicídio privilegiado.

O que no início parecia ser impossível, na minha cabeça se tornou provável. Tenho o hábito de conversar sobre meus processos com todas as pessoas que me cercam – claro que sempre mantendo o sigilo necessário. E absolutamente todos os colegas e amigos me diziam que as teses eram boas, mas que o caso era extremamente difícil.

Assim como os jogadores do América Mineiro e São Bento jogaram com a alma por se identificarem com seus clubes e com suas respectivas torcidas, eu me identifiquei fortemente com o acusado e me vi apaixonado pela tese de defesa. E uma das principais consequências da paixão é a cegueira. Eu estava cego e cada vez mais confiante na possibilidade de absolver aquele que deu-me o maior presente que um advogado pode receber: a confiança na assinatura da procuração.

Chegando no dia do júri, me deparei com um plenário relativamente cheio. Familiares e amigos da vítima compareceram em peso, com camisetas que estampavam o rosto daquele que havia perdido a vida.

Quando o Juiz da Vara do Júri da Comarca de Florianópolis/SC deu a palavra à Defesa, pude enfim desabafar e colocar pra fora tudo aquilo que estava engasgado há um mês. Com absoluta certeza, foi uma das melhores atuações da minha curta carreira.

Assim como os jogadores de América Mineiro e São Bento jogaram com o coração na ponta da chuteira, eu joguei com o coração na ponta da língua. Trabalhei a prova, mas também trabalhei a emoção, com a responsabilidade de quem queria, mais do que qualquer coisa, atingir o melhor resultado para aquele que pregava os glúteos no banco dos réus.

O Ministério Público e a Assistente de Acusação chamaram a réplica, dando à Defesa a oportunidade de falar por mais uma hora. Finalmente, após mais de 9 horas de trabalho, findaram os debates e fomos até à sala secreta.

E mais uma vez, assim como no jogo do Coelho, por muito pouco o resultado pretendido não foi alcançado. Nessas horas, é impossível saber exatamente o motivo, mas com absoluta certeza foi algo semelhante ao gol perdido pelo atacante do América, ou então à soma de resultados que impossibilitou a permanência do time paulista na Série B.

Quando o Juiz de Direito tirou os votos determinantes, ainda na sala secreta, não consegui segurar o choro, o qual ainda insiste em vir em saltos incontroláveis na minha garganta.

Saindo da sala de votação, fui pessoalmente dar a notícia ao réu, ainda que sem conseguir controlar a tristeza que me dominava e resultava no descontrole das lágrimas. E assim como os torcedores de América Mineiro e São Bento aplaudiram os jogadores, o acusado olhou pra mim, me abraçou, ergueu a cabeça e disse: cara, tu foste brilhante, se eu fui condenado é porque era pra ser.

No fim das contas, ao ler a sentença, os familiares da vítima e do acusado saíram chorando. Todos choraram. Ninguém venceu. Todos perderam. Porque, assim como no jogo de América Mineiro x São Bento, no Júri ninguém ganha. Todos perdem.

Matheus Menna é advogado criminalista

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