Advogar é verbo. Pela etimologia da palavra, de origem latina, assim demonstra: ad vocare, ou seja, “chamado para falar”. O advogado, desse modo, tem na sua gênese estrutural a representação, a assistência, o chamado para falar por alguém, é aquele que age.

A atuação, por conseguinte, dos homens e mulheres que se dedicam ao exercício da Advocacia e do Direito, não se aperfeiçoa apenas com informações de matriz técnica. Pelo contrário, vai muito além. É preciso, sobretudo, sentir, experimentar, vivenciar!

José Roberto de Castro Neves narra em seu livro Como os Advogados Salvaram o Mundo[i], um curioso e profundo alerta àqueles que dedicam suas vidas ao exercício da Advocacia. Trata-se, na realidade, da resposta a uma carta, escrita em 1954 à Paul, um menino de 12 anos, do estado da Virgínia, redigida por Felix Frankfurter (1882-1965), então ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, respondendo ao garoto que, por estar interessado em estudar Direito, perguntava ao renomado jurista como deveria se preparar para a carreira jurídica.

Frankfurter, que para além de ministro, foi também professor e Advogado respondeu, perspicazmente, em apenas um parágrafo:

Meu querido Paul, ninguém consegue ser um advogado verdadeiramente competente se não for um homem culto. Se eu fosse você, esqueceria tudo o que diz respeito à preparação técnica para o Direito. A melhor forma de se preparar para o Direito é começar os estudos do Direito como uma pessoa culta. Somente assim se consegue adquirir a capacidade de usar a língua inglesa escrita e falada, bem como os hábitos de pensamento claro que somente uma educação verdadeiramente liberal pode dar. Não menos importante para o advogado é o cultivo das faculdades imaginativas por meio da leitura da poesia, da exposição de grandes pinturas, em seus originais ou em reproduções facilmente disponíveis, e das grandes músicas. Abasteça sua mente com uma excelente leitura, amplie e aprofunde seus sentimentos ao experimentar verdadeiramente e ao máximo os maravilhosos mistérios do universo e esqueça por completo a sua carreira futura.”.

Acreditamos, profunda e sinceramente, que a resposta de Frankfurter à Paul, recheada de elementos persuasivos, por si só, bastaria para o convencimento do leitor de que para ser um Advogado é preciso ir muito além do estudo técnico operacional do Direito. Mas aqui, cabe acrescentar o brilhante ensinamento de Rui Barbosa, proclamado na Oração aos Moços[ii]: “ler é vulgar, raro é o refletir”!

Fazendo, portanto, uso da faculdade de reflexão proclamada por Rui, é preciso compreender que o Advogado fala pela pessoa que o procura. E isso se faz, como aduz Frankfurter, com o abastecimento das faculdades imaginativas, do pensamento crítico e criativo. É fundamental ao Advogado o conhecimento do ordenamento jurídico, entretanto, isso não é suficiente, porquanto advogar, em grande parte, é conhecer a natureza humana, já diria José Roberto de Castro Neves no referido livro.

Sobre a nossa contemporaneidade, Zygmunt Bauman (1925-2017), importante sociólogo polonês, denunciou a crise da humanidade, mencionando que as conexões do mundo pós-moderno implicaram na formação de uma sociedade de consumo que modificou a exegese daquilo que se denomina por cidadão.

Utilizando-se da metáfora baseada nos estados físicos da matéria, Bauman asseverou que, na verdade, houve uma divisão temporal, caracterizada pela passagem do “sólido” para o “líquido”[iii], que canalizou num “processo progressivo de individualização, acelerado e cada vez mais intenso”. Por essa perspectiva, Bauman sustentou a tese de que a sociedade de consumo corresponde a um acréscimo de individualismo que obscurece as possibilidades de gênese de um sujeito moral.

É preciso salientar isso porque vivemos em tempos líquidos, onde o ler é que é difícil, o refletir quase que impossível, os fenômenos de natureza social são ignorados e a especialização avança de tal modo que homem perde sua visão de conjunto e, assim, a visão de si próprio e a visão do seu próximo.

Nesse norte, vale observar que esse acréscimo de individualismo assombra a advocacia, uma vez que o advogado constrói o seu discurso com base no ponto de vista do outro, logo, ele enriquece o seu trabalho quando exercita a capacidade de entender o seu cliente. Isso porque a Advocacia, onde a luta pela defesa dos direitos da classe é diária, requer olhar para o outro, para o contexto, navegar nas adversidades e compreender a natureza humana.

O estudo, portanto, se destaca como ferramenta fundamental para construir uma base sólida e apta a sustentar o exercício da profissão, através, é claro, de grandes mestres: os livros. A formação baseada na educação é, talvez, o cerne da advocacia que frutifica. Por meio da educação, como nos ensina Frankfurter, é que o advogado se municia de bons valores. Longe de nós negar a necessidade de buscar uma área de especialidade, mas sim acrescentar que não devemos nos fechar apenas nela e no conhecimento jurídico.

Destacamos, também, que diante da complexidade da nossa sociedade, da grande quantidade de informações disponíveis na palma das nossas mãos, como nunca antes na história da humanidade, precisamos filtrar aquilo que chega para nós. Nossos valores morais e éticos, por conseguinte, devem ser nítidos, a ponto de guiar e orientar a nossa conduta, uma vez que para uma carreira longeva, ao menos na Advocacia, o advogado deve ter em vista a moral e a ética.

Quanto ao exercício da advocacia, devemos ter em mente que a prática é o que constrói e solidifica a carreira; se o estudo faz a base, a prática é que eleva a edificação, assim, vale o reforço do conselho de Rui: “há estudar, e estudar. Há trabalhar, e trabalhar”.

A força do Advogado provém da palavra. E a força da palavra advém da riqueza de seu conteúdo. Mas para ter conteúdo é preciso educar-se, não somente pelo estudo técnico do direito como por aí se vê. É preciso abastecer-se de elementos alheios ao Direito e procurar uma “educação esmerada, a fim de absorver, pela cultura, a essência da humanidade e dos valores que o Direito visa proteger. Afinal, o Direito sem valores é como arma sem mira. O mais profundo conhecimento jurídico, detido por quem não tem ética, é como óculos nas mãos de um cego”[iv].

Por fim, cabe a nós, Jovens Advogados, a lição de que mergulhar em oceanos alheios ao Direito é fortalecer um futuro promissor.

 

[i]  NEVES, José Roberto de Castro. Como os Advogados Salvaram o Mundo: A história da advocacia e sua contribuição para a humanidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

[ii]  BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. 5. ed. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1999. Edição popular anotada por Adriano da Gama Kury.

[iii] BAUMAN, Zygmunt. Isto não é um diário. Tradução de Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2012

[iv] NEVES, op. Cit. p. 294-295.

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