“Aqui no sistema prisional, a Doutora vai ter que esperar umas duas horas para falar com o seu cliente”, disse o agente do DEAP; “aqui na audiência, a Doutora vai falar somente depois que eu tiver finalizado, não havendo o que se falar em questão de ordem neste ponto”, disse o Promotor de Justiça; “aqui no Plenário do Júri, a Doutora não vai poder tomar café e nem
utilizar o celular, pouco importando se estiver auxiliando a defesa”, disse o Policial Militar…

É, meu caro, ser uma jovem advogada, ainda criminalista, não é para covardes – além do mais em uma área predominantemente masculina. É preciso que tenhamos, todos e todas, muito pulso firme e posicionamento, para
que não caiamos nas ciladas propostas pelas autoridades.

Ciladas essas que, muitas das vezes, não parecem graves mas, na verdade, quando analisadas a fundo, são verdadeiras aberrações jurídicas e abusos de autoridade. Não raras as vezes, passei e ainda passo por situações deselegantes.
E, pior, presencio e testemunho jovens colegas de classe experenciando momentos “únicos” como esses.

Aliás, compartilharei um desses momentos, e faço referência à derradeira citação que fiz no início deste pequeno diálogo que aqui crio: certa vez, adentro ao Plenário do Tribunal do Júri desta Capital, a fim de prestigiar e auxiliar, como advogada de defesa, a atuação do Núcleo Penal do escritório de advocacia em que advogo.

Daquele meu jeitinho desajeitado de ser e sempre correndo por aí (só quem é advogado entende), atravesso as barreiras do local em que fica instalado o Plenário e, de pronto, sou interpelada por um Policial Militar. No susto, me questiona se eu sou advogada, e, por óbvio, respondo rapidamente e forma afirmativa, desejo-lhe um bom dia, e tento correr à bancada para
auxiliar os advogados constituídos. Afinal, estava ali a trabalho. E, como sabem, a advocacia não para.

“A Doutora não vai poder ficar mexendo nesse celular aí”, sustentou o militar. Tento explicar que, ainda mais nos dias de hoje, o telefone celular se trata de instrumento de trabalho do advogado. Corro à bancada do Plenário. Em meio aos calorosos argumentos liderados pela defesa e pelo parquet estadual, que ecoavam entre os familiares e demais advogados
presentes no Júri, ouço, de supetão, bem pertinho dos meus ouvidos, a frase: “é a última vez que eu vou mandar a Doutora desligar esse celular. Aqui quem manda não é a senhora, é o juiz presidente da sessão”.

Paro, respiro, observo os demais presentes no local e visualizo que todos estão mexendo em seus celulares: agentes do DEAP, demais militares e outros advogados (experientes e não jovens advogados, por certo). Argumento, com toda a educação que meus queridos pais tiveram a oportunidade de me conceder: “policial, com todo respeito, já lhe falei que o
celular é o instrumento de trabalho de um advogado.

No momento, estou auxiliando a defesa a fazer o seu trabalho nesta sessão”. Com ar de deselegância – o que falo já pedindo todas a vênias –, escuto que eu não estava constituída nos autos e, portanto, não fazia parte da defesa daquele réu e deveria prontamente desligar meu celular (aliás, fez questão de dizer que desligar não significava colocar no silencioso).

Muita água rolou depois desse episódio que lhe conto. Mas acredito que esse excerto já tenha por demais bastado. Percebe a injustiça que tive de passar? A incomodação, a explicação desnecessária ao Policial? Em meio ao extenso uso do aparelho eletrônico por todos os presentes… por que somente eu sou proibida?

Nós, jovens advogadas – e aqui me refiro tão só a nós mulheres de propósito –, temos que, a todo tempo, provar que somos competência. Que somos força. Que somos posicionamento. Que somos garra. Que somos advogadas. Ora, claro, sempre em cima do salto alto, exalando muita cortesia e classe.

Quanto a nós, jovens advogados – e aqui não importa gênero –, não podemos obliviar de nos insurgirmos contra qualquer tipo de violação de prerrogativa de classe (confere o Estatuto da Advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil – Lei Federal nº 8.906/1994), o que, diga-se de passagem, não são privilégios do advogado! São direitos tipificados em Lei Federal e, portanto, de necessário conhecimento de todos.

Não podemos – sob o pretexto de que somos jovens – aceitar menos do que respeito, educação, e cumprimento de nossas prerrogativas profissionais. Não detenho o objetivo de lhe afastar da advocacia – bien au contraire. Ela é amor, mas também é exaustão. Ela é repleta de vitórias, mas também de perdas. Ela é dias de combates e guerras, mas também de dias tranquilos e pacíficos.

Advocacia é equilíbrio.

E não é disso que todos precisamos?

Carolina Gevaerd é advogada. Possui graduação em Direito pela Faculdade CESUSC (2018). Pós-graduanda em Ciências Criminais pela Faculdade CESUSC. Membro da Comissão de Assuntos Prisionais da OAB/SC. Membro da Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de Santa Catarina (AACRIMESC).