Advogada Tainara Endler

No início da carreira é comum o profissional do direito manter a ilusão dos seriados americanos, de que serão super-heróis de uma grande causa e farão discursos longos e emocionantes aos Juízes diante de uma tribuna, pois bem, grande engano. O choque de realidade já surge nos estágios, é uma enxurrada de novas informações, grandes responsabilidades e algumas decepções, principalmente diante do atual cenário político, econômico e social brasileiro.

Os desafios a serem enfrentados aos 20 e poucos anos de idade, na nossa profissão, exigem muita coragem e persistência. Não podemos nos abalar com as críticas, é preciso seguir em frente e continuar firme.

Infelizmente a advocacia requer decisões praticamente perfeitas. Aprendemos desde cedo que erros são inadmissíveis e custam caro. Sabemos que o erro é algo natural do ser humano e que é por meio dele que aprendemos a acertar e, assim, finalmente amadurecer diante de novas situações que demandam mais atenção. Entretanto, na advocacia “deslizes” não são permitidos, uma vez que vivemos em constante pressão.

A cada obstáculo, temos que ser bons analíticos para contornar situações delicadas e extrair o melhor para sairmos vitoriosos. A advocacia é isso, uma mistura de momentos gloriosos e alguns dias nebulosos, considerando que somos instrumentos e intermediadores de conflitos, assim, estamos cercados de desafios diários, e cabe a nós, levar uma solução eficiente até o cliente.

Bom, não quero nem pretendo fazer um discurso motivacional neste artigo, mas acredito que ao compartilharmos pensamentos e experiências, muitas vezes nos identificamos com situações semelhantes vivenciadas no nosso dia a dia.

Desde o começo, ainda no curso de direito, aprendi que é importante: ouvir a opinião de alguém mais experiente; saber cultivar boas amizades para ter boas influências; manter o pé no chão e trabalhar com humildade; ser ético, comprometido e pontual no trabalho; participar com regularidade dos eventos, cursos e palestras promovidos pela faculdade e pela nossa instituição (OAB/SC e CAASC), ou seja, é fundamental se mostrar presente e atuante.

Além disso, a busca por uma especialização é essencial, haja vista que jamais podemos parar de estudar, ler, interpretar, conhecer novas doutrinas e nos adaptar às jurisprudências dos mais diversos segmentos, que mudam constantemente, de acordo com os costumes da sociedade.

Ainda, defendo a forma simples de escrever e conversar com o cliente, de fundamentar o processo com fatos realmente pertinentes, que chamem a atenção do magistrado, vivemos numa época em que tudo precisa ser urgente e objetivo, não faz mais sentindo utilizar expressões incompreensíveis.

Por mais que lhe apresentem um “caso perdido” não encare dessa maneira, reaja de forma positiva e procure a melhor solução, que pode ser um acordo ou uma verdadeira maratona de litígio no judiciário, esteja sempre aberto a novas propostas.

Importante destacar que quando se é jovem advogado os desafios são em dobro ou triplo, não é mesmo? A idade de fato, ainda é uma barreira a ser superada, pois, quando o cliente descobre que vai ser atendido por um jovem advogado, é lógico que a primeira coisa que ele pensa é (e sabemos disso): será que esse(a) menino(a) vai conseguir resolver o meu problema?

O preconceito já inicia antes mesmo do “bom dia”, provavelmente, somente após cinco minutos de conversa, em que você tem a oportunidade de demonstrar conhecimento sobre os fatos, processo e lei, é a partir desse instante que o jovem advogado finalmente conquista a credibilidade e a atenção do cliente.

Essa situação é corriqueira, além de causar embaraço, os olhos desconfiados sempre se sobressaem. Quantas vezes, nas diligências realizadas nos Fóruns ainda somos confundidos como estagiários pelos servidores? Muitas vezes, as roupas sociais e os óculos de grau não são suficientes para “disfarçar a juventude” e, pior ainda, somos pré-julgados pelo nº da nossa inscrição na OAB.

Por outro lado, em quantas oportunidades, nós jovens, já auxiliamos outros colegas mais experientes num simples peticionamento eletrônico? Quantas vezes nós baixamos e instalamos o PJe, JAVA, E-PROC, PROJUDI, e-SAJ entre outros sistemas e, ainda, enfrentamos problemas com o certificado digital? Quem nunca passou por esse momento de tensão e sofrimento? Afinal de contas, na faculdade ninguém separou uma disciplina específica de como protocolar petições nos diversos sistemas eletrônicos judiciários de cada Estado brasileiro, isso sem mencionar os regimentos internos dos Tribunais.

Seguindo no mesmo pensamento, podemos afirmar com propriedade que, a tecnologia é a nossa vibe, certo? Somos a geração z, aquela privilegiada pelos equipamentos eletrônicos, aquela que não teve que buscar as publicações e as intimações no jornal físico, aquela que não teve que levar um processo físico de cinco volumes em carga (rápida de 24horas para digitalizar no escritório), aquela que nunca saberá o que é protocolar um Agravo de Instrumento físico no Tribunal de Justiça (até às 19h)… resumindo, hoje, somos a geração privilegiada que resolve quase tudo na frente da tela de um computador.

As diligências externas nos Fóruns e nos Tribunais e o contato visual do magistrado com as partes e o advogado estão cada vez mais escassos, isso já ocorre em diversos ramos, não somente no direito. A falta do contato humano é o grande mal do século.

Voltando à tecnologia… intimações pelo whatsapp? Temos! Audiências e sustentações orais por vídeo conferência? Também temos! A necessidade de nos habituarmos às novas mudanças, mesmo sendo jovens, é uma verdadeira corrida contra o tempo, e falando em tempo, que bom seria se alguns dias tivessem mais de 24 horas…

O jovem é dinâmico, gosta de inovação e sabe que precisa usar esses instrumentos a seu favor, nesse sentindo, destaco o uso do paint (com setas de indicação e vários círculos em vermelho) criação de planilhas no excel, recortes de PDF, vídeos, áudios, gráficos e os “prints” das redes sociais, atualmente, essa infinidade de ferramentas probatórias são INDISPENSÁVEIS para fundamentar qualquer petição, e repito, nada disso é ensinado na faculdade.

As críticas vêm forte, uma pena! Nós, jovens advogados(as), também somos críticos, analíticos e detalhistas. Essas características diferenciam um bom profissional do médio e nada mais importante para uma carreira promissora do que o compromisso de assumir e chamar a responsabilidade para si, ser alguém “fora da curva” não é algo impossível de ser conquistado.

Por isso, lute para alcançar o seu espaço, ouvimos diariamente que não há mais lugar na advocacia brasileira, isso inclui principalmente os jovens, pelo grande número de inscritos na ordem. No entanto, discordo, sempre há demanda, basta dedicar-se a uma área específica, se mostrar interessado em cada caso como se você estivesse vivenciando aquele problema, é ter empatia e se colocar no lugar do cliente, prestar informações, até quando ele manda aquela mensagem insistente… e aí doutora, alguma novidade no meu processo?

No começo “pegamos” casos de todos os tipos, quem nunca atendeu um familiar? Processos dativos também devem ser valorizados, pois garantem uma vasta experiência, conhecimento nunca é demais!

Já sofri diversos olhares preconceituosos, mas também orgulhosos nesse primeiro ano como advogada, é necessário confiar no seu trabalho, lembrar que você tem um poder especial, que é o poder da palavra, você pode representar outra pessoa, que confiou na sua capacidade laborativa, para pleitear um direito alheio na justiça.

É primordial que o advogado seja apaixonado por crises, histórias e conflitos. Cada um possui as suas características e individualidades, ninguém é especialista em tudo, alguns se saem melhor em audiências, outros conseguem descrever e instruir como ninguém: peças e teses, outros possuem uma excelente oratória, enfim, cada um sempre se destacará por um fator diferente e isso é normal!

Os mais experientes dizem que os jovens querem as “coisas mastigadas” e de fácil solução. Outra vez eu discordo, até porque, neste perfil, não há vagas no mercado de trabalho competitivo como o nosso. Precisamos ser curiosos e ir atrás das informações necessárias para obter êxito numa causa que nos é proposta. Esta é a nossa principal missão, oferecer ao cliente todas as suas opções e, por fim, aconselhar o caminho mais coerente a ser seguido.

Atualmente, ser advogado é respeitar e discordar da opinião do outro ao mesmo tempo, defender TODAS as diversidades, esclarecer ao cliente a necessidade do cumprimento das normas, transmitir segurança, ser íntegro, ajudar a formar uma sociedade igualitária, equilibrada e consciente, ter sempre bons argumentos, pensar em todas as possibilidades numa situação adversa, pois a probabilidade de ser “pego de surpresa” a qualquer momento é muito real. São algumas situações e características que merecem ser praticadas com mais frequência.

A luta do jovem advogado é diária, muitas vezes sozinho, fazendo tudo ao mesmo tempo, indo ao Fórum, fazendo audiências, diligências, reuniões, atendimento por telefone, servindo café, respondendo e-mails e whatsapp, alimentando as redes sociais com conteúdo jurídico, trabalhando e estudando aos finais de semana, abrindo mão de compromissos sociais para se dedicar ao trabalho… ufa! Tenho certeza que no futuro a recompensa virá, pois, ao terminar uma semana longa de trabalho, nada mais satisfatório do que a sensação de dever cumprido.

Por fim, como eu sou ligada em citações, gostaria de enfatizar o seguinte pensamento:

“Não existe isso de estar completamente preparado. A vida é uma aventura através da qual aprendemos e amadurecemos. É claro que precisamos considerar as opções com cuidado. Mas se esperarmos ter 100 por cento de certeza, já será tarde demais.”

Sendo assim, jovens advogados, vamos sentir orgulho da nossa instituição, cada vez mais inclusiva e transformadora. A jovem advocacia merece respeito, pois a cada entrega de credencial, novos sonhos se iniciam – e TODOS JÁ PASSARAPOR ESSE MOMENTO, SEM EXCEÇÃO.

Tainara Endler é bacharela em Direito (UNISUL), Advogada, Pós-Graduanda em Processo Civil (CESUSC), Membra da Comissão da Jovem Advocacia, Atleta da Seleção Feminina de Futebol 7 da OAB/SC.