Bem-vindos à Era da Transcendência[1]. Nela, as influências físicas e materiais que dominavam a cultura do século XX cedem espaço às influências metafísicas e espirituais. Sim! As pessoas estão se valendo cada vez mais das suas próprias intuições e experiências para tomar decisões. Em última análise, tudo é pessoal[2].

Estudos recentes[3] demonstram que a sociedade, ao longo dos últimos anos, passou a se utilizar mais do lado direito do cérebro (comumente associado a perspectivas mais emocionais) em detrimento ao hemisfério esquerdo (normalmente ligado mais a atitudes racionais), o que, de certa forma, corrobora a importância da transformação organizacional por meio das pessoas e não simplesmente por mudanças formais.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com programas de compliance? Absolutamente tudo! É que ao se impor apenas regras de condutas corporativas, estaremos estimulando, em um primeiro momento, a adoção de práticas racionais e mecanizadas por parte de todos os colaboradores da organização, podendo levar, assim, a uma hipertrofia do hemisfério esquerdo cerebral.

É preciso mais. É preciso reforçar o uso do hemisfério direito do cérebro, por meio da adoção pragmática de 4 Cs: compromisso, coerência, consistência e continuidade[4]. Compromisso com valores e princípios. Coerência com as atitudes. Consistência com os hábitos. Continuidade com o discurso. Sem esse movimento de ruptura, pouco ou de nada adiantará a implantação de programas de compliance.

Como bem delineado por Di Miceli (2018)[5]as decisões antiéticas são resultado de um processo de desengajamento moral que se desenvolve ao logo do tempo por meio de mudanças graduais e imperceptíveis. Quase ninguém, e provavelmente nenhuma organização, simplesmente decide cometer uma grande transgressão do dia para a noite”.

Reafirmo o que ponderei recentemente[6]: a implantação de programas de compliance é essencial para o bom andamento da empresa. Essa ferramenta, contudo, não será capaz de sozinha realizar a tão esperada revolução organizacional. Afinal, como afirma Peter Drucker “fazer as coisas certas é mais importante do que fazer as coisas direito”.

Os programas de compliance necessitam ser incorporados à realidade das organizações não apenas por razões legais (de fora para dentro), mas, principalmente, por aspectos morais (de dentro para fora). Necessitamos criar pontes e não levantar muros entre as pessoas.

Cabe a todos nós entendermos que os programas de compliance devem sempre vir acompanhados de discussões voltadas à ética comportamental, à integridade organizacional e à importância de a empresa possuir verdadeiros mecanismos de integridade, sob pena de se inviabilizá-los em curto espaço de tempo.

De fato, “uma organização íntegra é aquela que consegue manter, em cada uma das suas decisões, atividades ou ações, uma coerência com a sua identidade, nunca perdendo de vista os valores que a inspiram e os objetivos que ela deva perseguir, transformando-os em ação concreta[7].

Sob essas luzes, o zeitgeist (espírito da época) da Era da Transcendência impõe um novo olhar aos programas de compliance. É chegada a hora de focarmos também nas pessoas e nos propósitos da empresa e não apenas em imposições legais ou no respeito irrefletido às normas de regência. Integridade não precisa de regras. Bem-vindos à Era da Transcendência.

Mais cultura, menos compliance!

Bruno Bartelle Basso É pós-graduado em gestão de risco e compliance. É certificado em gestão de riscos, compliance e gestão antissuborno. Atualmente, é Procurador do Município de Florianópolis.

 

REFERÊNCIAS

[1] A expressão foi retirada do livro “Empresas Humanizadas: pessoas, propósito e performance”, de Raj Sidoia, David Wolfe e Jag Sheth.

[2] A frase é atribuída à Ilya Prigogine, nobel de química em 1977.

[3] Por todos: “O cérebro do futuro: a revolução do lado direito do cérebro”, de Daniel Pink.

[4] A observação foi feita por Peter Ulrich e Thomas Maack.

[5] SILVEIRA, Alexandre di Miceli. Ética Empresarial na prática: soluções para gestão e governança no século XXI. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018, p. 106.

[6] Conferir: “Mais cultura, menos Compliance”. Disponível em: https://www.linkedin.com/in/bruno-bartelle-basso-617267186/detail/recent-activity/posts/.

[7] COIMBRA; MANZI. Manual de Compliance. São Paulo: Atlas, 2010, p. 9.