Por Maria Paula Canziani Pereira
Especial para o JusCatarina

A iniciativa de um escritório de advocacia de Florianópolis de elaborar um dress code para seus advogados e colaboradores rendeu polêmica e trouxe ao debate a questão do traje em ambientes profissionais. A expressão, que surgiu nos Estados Unidos, pode ser traduzida como um “código de vestimenta”, e define um conjunto de regras sobre o que se deve vestir para determinadas ocasiões, de acordo com profissão ou evento.

O arquivo do manual disponibilizado pela banca da Capital viralizou em grupos de WhatsApp de profissionais do Direito. As reações foram as mais distintas. Houve quem considerou “bizarro”, ou uma forma de imposição sobre o que os funcionários podem ou não vestir. Também surgiram piadas no estilo “memes”, com referências ao programa Esquadrão da Moda, do SBT, que auxilia pessoas a se vestirem mais adequadamente para valorizar biótipo e personalidade, assim como comentários enaltecendo e elogiando a iniciativa.

Menos de 24 horas depois, um e-mail da diretoria do escritório foi enviado aos colaboradores tratando da viralização do manual. “Esclarecemos que ele foi formulado por uma consultoria especializada, contratada pelo escritório, e que traz apenas recomendações. Respeitamos o estilo e o gosto de todos. Várias empresas e escritórios têm este tipo de documento porque se preocupam com a apresentação de seus colaboradores e advogados”, diz uma parte do texto.

Jornalista de moda Samira Campos

Para a jornalista de moda e designer Samira Campos, o dress code não tem a ver com imposição e pode ser aliado como fonte de informação para estar bem vestido. “A questão é que existem códigos na sociedade e roupas têm a ver com isto. São regras de conduta e cada trabalho exige uma adequação. O brasileiro tende a levar tudo na informalidade. É importante ter em mente que existe uma seriedade, uma formalidade que precisa ser respeitada. O dress code tem um propósito de ajudar neste sentido. Na área jurídica esta formalidade é bem evidenciada. Um advogado não seria bem visto em um tribunal usando uma camisa com estampa floral, por exemplo”.

O consultor de imagem Antony Bascherott trabalha há 20 anos na área. “A pessoa busca minha consultoria para potencializar sua melhor versão. Atendo mulheres e homens de sucesso. Meu trabalho é facilitador, para que, por meio do aprimoramento da imagem e do estilo, aconteça um resgate de si mesmo, passando uma imagem mais forte e coerente com a área de atuação da pessoa”, explica.

Anthony considera que muitas pessoas tem uma visão equivocada sobre o dress code. “É uma ferramenta que pode contribuir para o sucesso”, avalia. Antony acredita que mesmo no ambiente considerado mais formal, pode-se imprimir personalidade e estar confortável. “Para isto é preciso ter clareza do estilo pessoal, do biotipo e roupa. Chamamos de identidade visual”, ensina.

A advogada Gisele Ghanem Cardoso, especialista em direito da moda, busca bom senso e equilíbrio na hora de se vestir. “É importante ter uma noção básica do que se deve e do que não se deve usar. Mas não adianta só seguir o  dress code e não se sentir bem. Busco alinhar a minha personalidade com a mensagem que quero passar”. Ela acredita que a escolha da roupa também tem a ver com o tipo de cliente. “Eu trabalho com empresas da área de moda, o que me permite ser mais criativa na hora de escolher a roupa”, revela.

Os questionamentos sobre a necessidade do dress code são feitos por profissionais que querem ser menos burocráticos e mais autênticos também na forma de vestir. Uma advogada, sócia de um escritório que preferiu não se identificar, considera exagerado e ultrapassado qualquer tipo de rigor ou formalismo no exercício da profissão. “O perfil do nosso escritório é jovem e moderno, características que também abrem portas para novos negócios e clientes”, avalia.

Consultor de imagem Antony Bascherott

Outro advogado, que trabalha em Florianópolis e pediu para não ser identificado em função da polêmica, achou a iniciativa do escritório válida. “É fato que existe esta preocupação com vestuário na hora de trabalhar. Já vi advogado ser valorizado até pelo relógio que usa ou o carro que tem. Eu busco dicas de como me vestir na internet. Ninguém quer passar por situações de constrangimento por estar com uma roupa inadequada para atender um cliente, por exemplo”, opina.

Polêmicas à parte, a preocupação sobre o que vestir tratando-se de ambiente profissional começa desde a hora de ir numa entrevista de emprego. O site da Associação Brasileira de Coaching (www.sbcoaching.com.br ) traz artigo sobre o tema e deixa claro: “O uso de vestimentas adequadas também é um requisito essencial ao comportamento humano nas organizações. Boas práticas vão influenciar diretamente no marketing pessoal, já que a maneira de vestir-se é um critério de avaliação na carreira profissional”. O artigo também traz fotos com dicas de looks para serem usados no trabalho.

Cynthia de Almeida, colunista da revista Cláudia, contribui para o debate sobre roupas e ambiente profissional, na edição de setembro. Ela cita: “a qualidade do seu projeto está em jogo. Ao apresentá-lo, sua roupa funciona como o slide inicial da apresentação do Power Point. A primeira impressão, não se engane , ficará”.

Para a jornalista e designer Samira Campos, esta discussão pode ir além da clássica pergunta  “com que roupa eu vou”.

“Não são somente as roupas que vestimos, mas as atitudes que temos e a maneira como nos comportamos também influenciam no dia a dia da nossa vida profissional. As pessoas podem considerar que é ‘frescura’, mas são aspectos culturais”, complementa ela.

Um dos memes que circularam em grupos de WhatsApp; versão original traz o nome do escritório