Em tempos de intensa metamorfose política, social e econômica em nosso país, poucas atividades sofreram tão radical mudança nas últimas décadas como a advocacia. Até 1990, uma profissão com uma feição quase aristocrática – Dom Pedro I, em 1827, havia concedido aos advogados o título de doutor -, sediada nos grandes centros urbanos, com poucos profissionais, fruto do reduzido número de faculdades de Direito existentes até então (165 cursos em 1990).

Hoje, mais de um milhão de advogados e de 1.300 cursos de Direito, introduzindo a cada ano no mercado milhares de profissionais. Praticamente 75% da advocacia brasileira é composta por profissionais que se inscreveram nos quadros da OAB nos últimos 15 anos, trazendo um novo perfil – maior parte proveniente da geração Y -, muito distinto dos operadores jurídicos que estão a ocupar os principais postos nos Tribunais, MP´s, OAB´s e faculdades, criando um conflito geracional que merece ser bem estudado e compreendido tanto pelos que estão a ingressar, como por aqueles já posicionados no mercado, principalmente pelas mudanças que estão a implementar na sociedade.

Radicais também as mudanças no cenário político, econômico e social do país. Em 1990, uma economia fechada para o mercado internacional, quando inflação e dívida externa eram as maiores preocupações na seara econômica; a democratização do país, o maior desafio da área política, e a erradicação da miséria extrema, uma utopia na área social. Até então, uma advocacia “artesanal” e abrangente, com escritórios pequenos que tratavam de litígios do cotidiano e com poucas demandas de maior complexidade, porém, remunerados dignamente.

Entretanto, a intensa globalização econômica, social e até política das últimas décadas, aliada a um avanço tecnológico sem precedentes, trouxe novas demandas na área jurídica e a criação de inúmeros nichos de mercado, além de transformarem a gestão dos escritórios, que passaram a se inspirar no perfil inglês e norte-americano, com equipes de advogados multidisciplinares e especializados.

Não sabemos se estamos a viver uma “era de mudanças” ou uma “mudança de eras”, contudo, diante de tal cenário de metamorfose constante, cabe ao advogado, ainda que com ele não concorde, admitir esta realidade e, principalmente, compreender que o conjunto de competências e habilidades desenvolvidas até então há de ser sempre renovado e aprimorado.

Passou-se a exigir do advogado um perfil multidisciplinar, que o obriga a investir e se atualizar com as novidades tecnológicas, inovar na gestão do escritório e, ainda, especializar-se continuamente na sua área de atuação para atender demandas cada vez mais específicas e complexas. A advocacia, por cuidar da litigiosidade social, do patrimônio, da honra e da liberdade, será sempre imprescindível, sendo que alguns atributos milenares permanecem sempre atuais e imprescindíveis para o êxito profissional: ética, resiliência, estudo e capacidade de comunicação.

Contudo, não é uma profissão de certezas, mas sim de esperanças, diferenciando-a das demais porque traz consigo as chamas da paixão e da busca por Justiça, que movem a humanidade desde sempre, cabendo ao advogado do século XXI compreender esta nova realidade e encará-la como uma oportunidade para seu desenvolvimento profissional.

Rafael de Assis Horn é advogado, atual Diretor-Tesoureiro da OAB/SC

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