A cineasta paulista Ilaine Melo e o jornalista catarinense Altamir Andrade foram os vencedores de uma concorrência lançada pelo município de Joinville, por meio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), para a realização de um documentário de 25 minutos sobre o projeto idealizado e coordenado pelo juiz João Marcos Buch, que oferece aos detentos do presídio local a possibilidade de diminuírem as suas penas por meio da leitura.

Intitulado “Licença Poética”, o projeto abordará a literatura no Complexo Prisional de Joinville (remição e oficina literária) e a transformação que a leitura e a escrita podem trazer a uma pessoa, especialmente estando presa.

A diretora do filme, Ilaine Melo, diz que a obra quer apresentar à comunidade joinvilense e brasileira quais mudanças a prática da leitura literária provocou ou não nos detentos em questão.

“O documentário pretende mostrar como efetivamente esta iniciativa está ocorrendo sob o olhar do apenado. Como a prática da leitura está mudando, ou não, valores dos detentos com relação à cidadania, à ética, à liberdade responsável. A leitura que eles fazem destes livros será a mesma que fazemos nós? Assim, Licença Poética vai apresentar a leitura literária dentro das grades a visão de homens e mulheres privados de liberdade sobre clássicos da literatura mundial”, diz a pesquisadora e roteirista da obra, em matéria publicada esta semana no blog do jornalista Altamir Andrade.

O projeto Licença Poética, que conta com o apoio do Judiciário de Joinville e da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, é uma parceria entre o Instituto Viva a Cidade e Ipê Produções.

O Juiz da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville, João Marcos Buch, confirmou o acesso às resenhas escritas pelos detentos, o que será o ponto de partida para a seleção dos detentos que farão parte do documentário. “Projetos como esse são passos importantes na direção de um mundo não violento. Ludwig Witggenstein já dizia que o universo de um homem é medido pelo tamanho de seu vocabulário. Com isso o leitor expande seu universo, desenvolve a empatia e passa a compreender melhor sua própria história. Isso é educação, é fortalecimento da ética, é resgate da dignidade humana”, ressaltou o magistrado.

Para participar do projeto de Remição de Pena, o detento deve escolher uma obra da lista dos livros selecionados, ter um prazo de 20 dias para realizar a leitura e mais 10 para escrever uma resenha. Essa resenha é encaminhada ao Departamento do Curso de Letras da Univille, onde a professora Taiza Mara Rauen, juntamente com alunos bolsistas do referido curso, fazem a leitura das resenhas e, levando em consideração a formação escolar do detento, apresentam para cada resenha o seu parecer técnico. Este parecer é encaminhado à Justiça para avaliação e homologação do juiz, quando então, se for aprovado, o detento terá quatro dias abatidos de sua pena.

Isto significa que, ao ler um livro por mês, o detento tem a possibilidade de descontar 48 dias de sua pena em cada período de um ano. Em 2014 foram lidas 1.500 obras literárias, número repetido em 2015 e superado em 2016. Desde o início até hoje foram mais de sete mil resenhas homologadas.

“Obviamente, o primeiro impulso, ou a primeira motivação do apenado para iniciar a leitura é a remição da pena, mas o que nos interessa como objeto deste documentário é a transformação que a Literatura trouxe (ou não) a estes homens e mulheres que temporariamente estão privados de liberdade. Temos informações de detentos que já leram mais de cinquenta livros literários, leituras que vão além da obra/quota mensal que está vinculada à remição da pena”, diz Ilaine Melo.

O presídio industrial de Joinville já conta com uma biblioteca com quantidade significativa de livros. Centenas de obras são doações do empresário Mário Zendron, que vê na leitura uma oportunidade de mudança das pessoas. “Acredito que a literatura abre a cabeça das pessoas e mexe com o coração”, diz Zendron, que é um leitor contumaz.

O empresário Mário Zendron, patrono de algumas bibliotecas públicas em instituições joinvilenses, é uma referência no apoio às iniciativas de estímulo e apoio à leitura. Aos 88 anos, ele ainda marca presença diariamente na sua empresa. No escritório, livros são objetos marcantes sobre a mesa. Sorridente diz que ler é o que mais faz no local. “Depois que leio destino meus livros a doações. Também compro alguns para ampliar e atualizar as bibliotecas. E como muitos sabem dessa minha causa, doam livros para mim também”.

Foi Richard Harrison, atualmente vereador, quando comandava o Presídio Industrial de Joinville, quem convidou Mário Zendron para conhecer e pedir seu apoio na montagem da biblioteca para os apenados. “Doei e continuo doando. Acho esse projeto de Remição de Pena pela Leitura uma grande iniciativa do juiz João Marcos Buch. Respeito-o. Ele tem um coração nobre. E o presidiário deve ter acesso a livros que mexam com a mente e o coração deles. Eles saem de lá mais ‘gente’. Acredito que os livros melhorem as pessoas que estão presas”.

Na Feira do Livro de Joinville, em 2015, quatro detentos declamaram poemas autorais para o público presente. Foi neste dia que Alex Giostri, editor da Editora Giostri de São Paulo, presente no evento, se interessou pelo Projeto de Remição de Pena e, com o apoio do Judiciário local, iniciou uma segunda etapa deste trabalho, a de “Literatura no Cárcere” que, em síntese, é uma ação para o estímulo à criação literária. O editor defende a máxima de que “quem lê, escreve”.

Para dar início a esta nova fase do projeto, foram expedidos convites a todos os detentos. Aqueles que quisessem escrever algum texto, que assim o fizessem e encaminhassem ao juiz João Marcos Buch. Os textos, então, foram enviados para o editor Alex Giostri, que veio a Joinville e fez uma imersão literária com os detentos que escreveram as resenhas dentro do complexo prisional. A partir desta imersão, os detentos participantes do projeto começaram a ter oficinas constantes sobre criação literária. Destas oficinas nasceram duas publicações pela Giostri “Contos Tirados de Mim.

A Literatura do Cárcere” e “Contos Tirados de Mim. A Literatura do Cárcere. Vol.2”, ambas com lançamento em 2016.

“Projetos como estes são passos importantes na direção de um mundo não violento. A Literatura atingiu esses detentos profundamente. O bem que isto está provocando neles eu não consigo dimensionar. Porém, em mim e, tenho certeza, em toda a sociedade, eu consigo: está fazendo um bem enorme”, comemora João Marcos Buch.

“O sucesso destes dois Projetos (Leitura e Remição de pena e Literatura no Cárcere) é foco de análise de várias partes do País, mas pouco ou quase nada desse tema a sociedade joinvilense tem conhecimento. O que fica claro é que estes projetos, além de redimir a pena, incluem estes indivíduos na sociedade através da literatura e passam a ter assim uma passagem mais humanizada e construtiva enquanto cumprem sua pena no presídio”, finaliza Ilaine Melo.

Ficha Técnica do Licença Poética
Roteiristas: Ilaine Melo e Altamir Andrade
Diretora: Ilaine Melo
Diretor de Fotografia: Fabrício Porto
Trilha Sonora: Lausivan Correa
Produtor Executivo: Altamir Andrade
Montagem: Julium Schramm
Difusão do Filme: Ivan Melo
Produção: Ipê Produções

Com informações do blog do jornalista Altamir Andrade